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William Carvalho é um perna-de-pau

por contrário, em 29.10.16

Mais um tropeção do Sporting, desta vez a contar para o campeonato nacional. O Sporting empatou ontem na Madeira (0-0), onde defrontou o Nacional. O jogo ficou marcado pela grande penalidade que William Carvalho não conseguiu converter. Logo aqui, impõe-se perguntar a Jorge Jesus: Porquê o William? Ok, sabemos que o Adrien, habitual marcador de penáltis não estava presente, mas porquê o William? Então, o Bas Dost não seria a melhor opção? Ou o Gelson? Ou o Markovic? Ou o Bryan Ruiz? Ou o Bruno Cesar? Ou até mesmo o Rui Patrício?

 

Alguns dirão que é fácil falar depois de as coisas acontecerem e também sabemos que até o Messi e o Ronaldo falham penáltis, mas o William? O William é um perna-de-pau. Ainda não esqueci aquele penálti que falhou na final do Campeonato da Europa de sub-21.

 

É óbvio que o William é uma péssima escolha. O William é uma má escolha até mesmo para… jogar à bola.  Um jogador cuja velocidade máxima é 2,5 Km/h, que 99% dos passes são para o lado ou para trás e quase sempre para o jogador com a linha de passe mais curta e desobstruída não pode ser grande opção.

 

A minha opinião sobre William Carvalho piorou no final do jogo de ontem, quando declarou que o Sporting “merecia ter ganho e que o Nacional fez antijogo, impedindo o Sporting de fazer o seu jogo”. Parece que o William estava à espera que o Nacional não tentasse impedir o Sporting de fazer o seu jogo. E, apesar de o Nacional ter feito um jogo mais defensivo, o que é perfeitamente normal, na segunda parte esteve bastante bem, onde criou várias oportunidades de golo e até poderia ter ganho. Dizer que o Nacional fez antijogo é uma atitude desonesta. É ainda mais hilariante, quando proferido por alguém que não teve competência para marcar um penálti.

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Sinto-me havananado

por contrário, em 26.10.16

O Presidente da República está de visita oficial a Cuba, hoje e amanhã. Como é habitual nas visitas de Estado, o Presidente convidou os grupos parlamentares a juntarem-se à comitiva, por meio de um representante de cada partido com assento parlamentar. Ao que parece todos os partidos responderam com anuência ao convite de Marcelo Rebelo de Sousa, excepto o Bloco de Esquerda que justificou a sua ausência com o facto de ser prática habitual do partido limitar a sua presença em visitas de Estado, acrescentando que o BE apenas costuma incorporar as visitas a países com fortes comunidades portuguesas.

 

Como é hábito (e não estou a dizer que é um mau hábito), desataram a chover críticas. Eu até estaria totalmente de acordo se as mesmas fossem endereçadas a outros partidos e não ao Bloco de Esquerda que, pelo menos, demonstra alguma coerência.

 

Muito mais estranho que a ausência do BE é a presença dos partidos PSD e CDS nesta comitiva. Isso é que é um facto político extremamente relevante e não menos questionável. É incrível constatar o alcance da decência (ou falta dela) de PSD e CDS, ao aceitarem tomar parte numa visita de Estado a um país, do qual só sabem dizer mal. Um país comandado por ditadores sanguinários, não é o que eles tanto dizem? Cá para mim, estes dois andam a in[cuba]r alguma…

 

O CDS far-se-á representar pelo deputado Hélder Amaral, um especialista nestas manobras. Sim, Hélder Amaral, o mesmo que esteve (e com muito gosto) no congresso do MPLA em Luanda, onde assumiu que o seu partido está agora mais próximo do partido liderado por José Eduardo dos Santos. Na altura, Ribeiro e Castro chegou mesmo a ironizar, que “um dia, o congresso do CDS contaria com a presença do Partido Comunista de Cuba…”. Ora, vendo bem as coisas, não me admira nada que Hélder Amaral aproveite a ocasião para deixar o respectivo convite na secretária de Raúl Castro. Talvez até Paulo Portas dê um saltinho até Havana, já que agora é o representante do senhor Mota no outro lado do Atlântico. Quem sabe…

 

Em representação do PSD estará Luís Montenegro, outro que não suporta Cuba, nem a China... “Esses comunistas dum raio!”, dirão eles num dia de boa disposição. A Direita em Portugal é mesmo uma coisa patética. Eles encheram aviões (enquanto governantes) para ir à China mendigar pelo capital comunista, apesar de dizerem repelir esse país. Eles estão excitadíssimos com esta viagem a Cuba, mesmo tendo dito cobras e lagartos deste outro país. É fenomenal, não é?

 

Note-se ainda que, ultimamente temos assistido a uma preocupação destes dois partidos para com os sindicatos, vejam bem! PSD e CDS, partidos que nunca reconheceram “honestamente” o direito à greve e que sempre abominaram a existência de sindicatos estão, agora, muito preocupados com o facto de estes não terem (ainda) realizado greves e/ou manifestações. Apesar de isso não ser verdade (alguns sindicatos já o fizeram), o que é realmente espantoso é a preocupação que estes dois partidos revelam para com aqueles que sempre fizeram questão de marginalizar. E olhem que não era a fingir, pois via-se bem a cólera nos seus olhos enquanto se espumavam com discursos de ódio para com todos os comunistas deste mundo.

 

Esta Direita camaleónica deixa qualquer um havananado!

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Banqueiros competentes e dióspiros azuis

por contrário, em 25.10.16

Muito se tem falado no salário do presidente da Caixa Geral de Depósitos e restante equipa de executivos. A questão centra-se, sobretudo, no valor das remunerações, mas há também quem tenha trazido para a discussão a questão da competência. Bem, articular as palavras banqueiros e competência na mesma frase é um exercício arriscado. Para mim, encontrar um banqueiro competente em Portugal é como tentar encontrar dióspiros azuis.

 

António Costa convidou, em Maio deste ano, António Domingues (ex-vice-presidente do BPI) para ser o próximo presidente do conselho de administração da Caixa Geral de Depósitos. Há poucos dias, o governo anunciou que António Domingues vai auferir um salário anual de 423 mil euros (mais prémios, até 50% do salário).

 

Naturalmente que este anúncio causou incómodo na maioria das pessoas. Considerando a situação em que o país se encontra há vários anos e o árduo caminho que ainda está pela frente, considerando todos os sacrifícios que são exigidos aos portugueses e acima de tudo, o nível de rendimentos da esmagadora maioria dos cidadãos, não é fácil de compreender e aceitar que um “gestor público” vá auferir tamanho rendimento no exercício de funções públicas. Alguns, entre os quais o próprio primeiro-ministro, dizem que a Caixa deve estar nas mãos de pessoas competentes e que a competência tem um preço. Foi ainda mais longe, quando afirmou que o salário do presidente da Caixa deve estar alinhado com os que se praticam no mercado da banca. Acha mesmo senhor primeiro-ministro? Isso não só é estúpido como também é imoral. Pagar um montante elevado ao presidente da CGD não só não garante sucesso na gestão, como também não implica um acréscimo de responsabilidade por eventuais maus resultados que venham a acontecer. E, já agora, senhor primeiro-ministro, não lhe parece que baixar o tecto salarial dos gestores públicos (sem excepções) cabe perfeitamente na ideia que está na base do "sentido de serviço público"?

 

Mas a pergunta que me está a saltar da boca é: Como se mede a competência de um banqueiro? E, já agora, desde quando é que existe esse medidor? É que, considerando, o historial da banca portuguesa, não se vislumbra nenhum caso de competência. Dizem que António Domingues fez um bom trabalho no BPI. Será mesmo verdade? Ricardo Salgado também foi considerado, durante muitos anos, o melhor e mais competente banqueiro do país. E quem diz Ricardo Salgado também pode dizer Jardim Gonçalves, Oliveira e Costa, João Rendeiro, etc., cuja principal competência era a de “liquidar bancos”. Durante tantos anos nunca houve um aferidor de competência, especialmente na banca. Parece que este governo conseguiu desenvolver essa tão desejada ferramenta. E desenvolveu-a com tanta precisão que até permite, de antemão, garantir a distribuição de prémios pelo novo presidente da Caixa e sua equipa (onde parece que consta um tal de Emídio Pinheiro, presidente do Banco de Fomento Angola?!) que, ao que parece nem sequer estarão indexados a incontestáveis resultados. Quando digo resultados incontestáveis, refiro-me a resultados que não se baseiem em cortes com o pessoal, sustentados em políticas cegas de despedimentos como é habitual. Se é para isso vou lá eu e faço-o por menos de metade.

 

Importa ainda salientar duas situações. A primeira tem a ver com o facto do senhor António Domingues ter exigido como condição para ir para a presidência da CGD, auferir a mesma remuneração que auferia no BPI. Creio que isto já é bastante demonstrativo daquilo ao que vai o competente banqueiro, que não é capaz de destrinçar a diferença entre administrar um banco público e um banco privado. Há quem diga que ninguém muda de emprego para ganhar menos… Por acaso até nem é verdade. Existem vários exemplos de pessoas que saíram do sector privado para o público e para ganhar menos, algo que, apesar de não garantir competência nem conferir candura, pelo menos, é um sinal de compreensão sobre o que significa serviço público. Quem não quer, não vai, ponto final. Agora quando vêm logo com exigências salariais, fica claro que se tratam de pessoas sem o mínimo sentido de serviço público e, logo à partida, deveriam ser excluídos independentemente das suas competências. A segunda situação tem a ver com o facto de este senhor passar a acumular o principesco salário da CGD com a choruda reforma (desconheço o valor, mas é muito garanto-vos) que vai receber pelo tempo que trabalhou no BPI. Ora, parece que, afinal, António Domingues não vai receber apenas o que recebia enquanto vice-presidente do BPI (que já é bastante), vai receber muito mais do que isso no final de cada mês.

 

O que mais me preocupa no meio de toda esta polémica é o facto de os políticos não serem capazes de aprender com os erros do passado. A alteração ao estatuto de gestor público da CGD, que deixa de obrigar que os administradores da Caixa declarem os seus rendimentos às entidades fiscalizadoras só vem demonstrar que os políticos continuam enredados na teia dos poderosos da banca. E, sobretudo, aquilo que tem sido e, pelos vistos, querem que continue a ser a Caixa Geral de Depósitos – um antro de influências partidárias, onde o chamado “centrão” sempre se entendeu e coexistiu em perfeita harmonia.

 

Querer encontrar um banqueiro competente entre os actuais e anteriores banqueiros portugueses é como querer encontrar um dióspiro azul, esse maravilhoso fruto dos deuses. Alguns, por vezes, começam a apresentar uma cor em tons de azul, sobretudo quando estão bolorentos, permitindo adivinhar o que lhes está por dentro. Enfim, é a fruta da época.

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Leonard Cohen: You Want It Darker

por contrário, em 21.10.16

RECOMENDAÇÃO #8

 

ARTISTA: Leonard Cohen

ÁLBUM: You Want It Darker

Data de lançamento: 21 de Outubro de 2016 (Hoje)

 

Aos 82 anos, Leonard Cohen ainda lança álbuns de originais e não pretende ficar por aqui. Nós agradecemos. Não costumo fazer recomendações sobre álbuns que ainda não ouvi ou não ouvi as vezes suficientes, e este é um desses casos. Contudo, tratando-se do Grande Leonard Cohen, assino por baixo sem ler, ver ou ouvir.

 

O nome Leonard Cohen é mais do que um selo de garantia de qualidade. Saiu um álbum novo com o seu nome? É muito bom, tenho a certeza, mesmo sem ter ouvido o suficiente. Mas vou ouvi-lo e recomendo desde já.

 

Ouça aqui o single de apresentação do álbum, com o mesmo nome: You Want It Darker.

 

 

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Eu votaria em Trump

por contrário, em 21.10.16

Sim, eu votaria em Donald Trump para Presidente dos Estados Unidos da América. Não, não nutro nenhum tipo de simpatia pela pessoa, mas adoraria que ele fosse eleito, só para que se percebesse de uma vez por todas que é indiferente para os EUA (e para o mundo) quem é que vai ocupar a Sala Oval e sentar-se à Resolute Desk.

 

A verdade é que o Presidente dos EUA é o maior e mais famoso fantoche around the world. Aliás, ambos os candidatos se acusaram mutuamente de serem uns fantoches, no último debate. E ambos estão certos. O Presidente dos EUA é um fantoche. Quem manda nos EUA são as mãos obscuras que seguram nos cordéis que, por sua vez, manipulam o Presidente. E este corresponde-lhes com a devida prontidão. Seja ele quem for.

 

Nunca percebi a razão pela qual as pessoas depositam tanta fé e esperança na pessoa do Presidente dos EUA, quando na verdade ele não tem qualquer poder. Veja-se os mandatos de Barack Obama, aquele que ia trazer a paz ao mundo, entre outras maravilhas.

 

É por isso que eu votaria em Trump. Porque esta é, talvez, a maior oportunidade de desmistificar quem realmente manda na Casa Branca e de mostrar ao mundo inteiro que não interessa quem é o Presidente.

 

Por mim até podiam pôr lá o Rato Mickey ou o Pateta. O Pateta seria uma excelente escolha, considerando que levaria o Pluto consigo, assim, continuaria a existir dois cães na Casa Branca. Pelo menos isso.

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O assassino que chora a ver o Bambi

por contrário, em 20.10.16

O assassino de Aguiar da Beira afinal é um lamechas. O indivíduo que dá pelo nome de Pedro Dias, que abateu duas pessoas a sangue frio e tentou matar pelo menos outras tantas, anda a monte há quase dez dias. Inicialmente era visto como um monstro, pouco a pouco começa a ser visto como um indivíduo pacato, um paz-de-alma que não é capaz de fazer mal a uma mosca e que até se emociona facilmente.

 

A comunicação social tem este imenso poder transformativo. Passa-se de bestial a besta num ápice (neste caso concreto, “de besta a bestial”).

 

O tipo que é um assassino cruel, afinal tem um coração mole. Matou um polícia e atirou a matar sobre outro, mas tirando isso é uma jóia de pessoa. Entretanto, intercepta um casal que estava a tratar da sua vida, mata o homem e atira a matar sobre a mulher, só porque lhes queria usurpar a viatura e prosseguir em fuga. Pronto, não foi uma atitude bonita para com os azarados transeuntes que se atravessaram no caminho da besta, mas se esquecermos essa pequena falha rapidamente se conclui que este tipo é uma pessoa impecável.

 

Reparem bem! O criminoso mais procurado em Portugal só o é porque outros ousaram intrometer-se no seu caminho. Bandalhos! Ele andava na sua vidinha pacata e os outros é que vieram atrapalhar. Querem agora crucificá-lo por causa de umas pequenas falhas que foi forçado a cometer? Vá! Deixem-no em paz! Ele só quer sossego, passear por campos verdejantes, recostar-se na erva fresca, colher malmequeres e emocionar-se com o canto das cotovias.

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Ontem, depois da derrota caseira frente ao Borussia de Dortmund, Jorge Jesus voltou a alimentar o sonho da passagem do Sporting à fase seguinte da Liga dos Campeões, ainda que de uma forma menos efusiva que da última vez, quando disse que iria "pôr o Dortmund em sentido". Jorge Jesus disse, depois da derrota ante o Dortmund, que "ainda há 9 pontos em disputa", pelo que ainda é possível... Não é nada possível, homem de Deus! Porque é que Jorge Jesus não lê o meu blog? Se o fizesse já o saberia há muito (ver Ó Jesus desce à Terra!).

 

De facto ainda falta disputar 9 pontos (3 jornadas), mas convém não esquecer que também já se disputaram 9 pontos e o Sporting só arrecadou 3, tendo disputado dois jogos em casa. Sendo que agora terá os mesmos 9 pontos para discutir e que dois jogos são fora de casa (e para piorar a situação, o jogo em casa é frente ao Real Madrid) o Sporting fará, na melhor das hipóteses mais 3 pontos, o que não vai alterar em nada aquilo que o Sporting já conseguiu até ao momento, ou seja, manter-se e garantir o terceiro lugar no grupo.

 

Compreendo que seja difícil ter que aceitar a dura realidade, mas a verdade é que o Sporting não tem (e nunca teve) nenhuma hipótese de avançar para os oitavos de final da prova. Pode sonhar com isso? Pode, mas a dura realidade a que me refiro revelou-se logo na data do sorteio da fase de grupos, desde esse dia que ficou claro que o Sporting jamais conseguiria ir além da terceira posição do grupo. Para quê alimentar falsas esperanças? Porquê tamanha farelice?

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Nobel da Literatura: porque não Dylan?

por contrário, em 15.10.16

Como é do conhecimento de todos, a Academia Sueca atribuiu o Prémio Nobel da Literatura deste ano a Robert Allen Zimmerman, mais conhecido por Bob Dylan (seu nome artístico).

 

Como sempre há quem mostre satisfação, indiferença ou desagrado com a atribuição deste tipo de distinções. Eu, apesar de não apreciar muito as distinções que a sociedade moderna tanto aprecia, sejam os Nóbeis, os Grammys, os Emmys, as Bolas de Ouro ou outras, não fiquei nada surpreendido com a atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan.

 

E este texto vai no sentido de perguntar aos que ficaram desapontados com a escolha da Academia este ano, porque não Bob Dylan? Ouço e leio por aí que o Nobel da Literatura deve ser atribuído a quem escreve livros, a quem possui obra literária e que canções não são obras literárias nem cabem no universo da literatura.

 

Isso é que me deixa estupefacto. Primeiro é necessário clarificar que Bob Dylan, para além de cantor e compositor de canções também é escritor. Para os que acham que só a escrita convertida no formato livro é que obedece aos verdadeiros critérios literários, tenho a informar que também Bob Dylan tem livros escritos, o primeiro vai para 50 anos. Reconheça-se, contudo, que a principal obra literária de Bob Dylan são as poderosas letras e os magníficos poemas que o próprio converteu em excelentes canções, porque para além de grande escritor, Dylan é também um músico sublime. Até compreendo a inveja de alguns por não conseguirem conjugar as duas artes, mas melhor faziam se engolissem em seco.

 

Afinal, quantas grandes canções se socorreram nas letras de grandes escritores e/ou poetas? Inúmeras. Só a título de exemplo, fora do universo Bob Dylan, temos (e em português) a canção dos Trovante “Ser Poeta (Perdidamente)”, um belíssimo poema de Florbela Espanca. Ou então o poema escrito por Carlos Drummond de Andrade com o título “Canção Amiga”, convertido em canção por Milton Nascimento. Os inúmeros e aclamados fados de Amália Rodrigues, quase sempre interpretando grandes poemas de autores nacionais. Já ao nível da escrita anglo-saxónica podemos tomar como exemplos, poemas de Salman Rushdie (escritor sobejamente laureado) convertidos em canções. Podemos também referir James Joyce. Alguns poemas de Pablo Neruda (Prémio Nobel em 1971) também foram convertidos em canções. E eu podia estar aqui a semana toda a enumerar outros casos. Está bem, só mais um: William Shakespeare. Foram muitos os que interpretaram os seus poemas no formato canção. Aliás, não é necessário ser-se muito entendido em literatura para perceber que os maiores escritores empregavam, não raras vezes, recursos linguísticos que conferiam musicalidade e ritmo às suas obras. As palavras, o ritmo e a musicalidade sempre estiveram intrinsecamente relacionados, mas só alguns conseguem ter a genialidade para os combinar. Dylan é um deles.

 

A verdade é que Bob Dylan não teve a necessidade de recorrer a grandes escritores/poetas para conceber grandes canções, porque ele próprio é um excelente poeta e escritor. Ainda persistem dúvidas na atribuição do Nobel?

 

Veja-se, a Academia Sueca escolhe os seus laureados pela importância que a obra dos mesmos tem na sociedade e, não haja dúvidas, o legado de Dylan que não é apenas musical mas também literário teve e continua a desempenhar esse papel. Qual é a dúvida?

 

Vi também por aí muitos escritores, desses que escrevem livros e que se acham num plano intelectual acima de um “mero” escritor de canções contra a atribuição do Nobel deste ano. Como já referi anteriormente, Dylan não escreveu apenas canções. Mas foquemo-nos apenas nas letras/poemas que Dylan escreve e canta. Só quem não os conhece é que pode duvidar da qualidade dos recursos literários neles contidos. A força da mensagem, a expressividade e a estética empregue em cada poema. Enfim. Há também aqueles que acham que o valor de uma obra literária se mede pela quantidade de palavras escritas e que letras/poemas de canções não cabem no universo das obras literárias. Pois eu não tenho dúvidas que alguns poemas (alguns deles bem curtos) e algumas letras de canções valem muito mais que centenas de páginas escritas por alguns pseudo-eruditos que inundam os escaparates das livrarias com… trampões literários.

 

Tal como referi no início, não sou apologista de distinções sociais, no entanto, esta deixou-me satisfeito. Não apenas pelo facto do laureado ser, de facto, alguém que muito tem contribuído para o enriquecimento do universo literário, mas também pela coragem que a Academia teve em cortar com alguns pestilentos padrões sociais que ainda minam a nossa sociedade.

 

Parabéns à Academia pela escolha. Proponho já o nome e a obra literária de Leonard Cohen para o próximo ano.

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A Proposta de Lei 370/2016 aprovada no último Conselho de Ministros e que tem em vista a elaboração do Orçamento do Estado para 2017 já foi apresentada. Desta proposta “saltam à vista” algumas medidas, tidas como as mais sonantes e que muito têm sido discutidas pelos diferentes partidos políticos com assento parlamentar, bem como na comunicação social e população em geral.

 

Das várias propostas, as mais famosas são as seguintes:

 

Adicional ao Imposto Municipal sobre Imóveis (conhecido como o imposto sobre o mobiliário)

Comecemos pelo Adicional ao IMI. Segundo o que é proposto pelo Governo, todos os imóveis de valor matricial superior a 600 mil euros terão que pagar um adicional de imposto, no valor de 0,3% que incide sobre o montante que excede o limite de 600 mil euros. O Governo diz que com esta medida pretende financiar a Segurança Social, nomeadamente para fazer face ao aumento das pensões e que espera arrecadar 170 milhões de euros por ano. Tenho sérias dúvidas que o Estado consiga atingir tal valor, nos termos apresentados.

 

Ainda neste ponto, aquilo que vem disposto na proposta de lei é que o adicional ao imposto municipal sobre imóveis incide sobre a soma dos valores patrimoniais tributários dos prédios urbanos situados em território português de que o sujeito passivo seja titular e que são excluídos do adicional ao imposto municipal sobre imóveis os prédios urbanos classificados na espécie “industriais”, bem como os prédios urbanos licenciados para a actividade turística, estes últimos desde que devidamente declarado e comprovado o seu destino. Contudo, alguns órgãos de comunicação social têm informado que todos os prédios destinados ao comércio, escritórios e serviços serão abrangidos por esta medida, ficando de fora os prédios rústicos, os imóveis afectos à indústria e as unidades hoteleiras. Como se pode constatar há uma grande diferença entre o que está escrito na proposta e o que tem sido veiculado por alguma comunicação social. Esperemos para ter a certeza. O que é facto é que o Governo havia garantido que todos os imóveis produtivos ficariam de fora desta medida.

 

Aumento das pensões

Há umas semanas havia sido anunciado que estava a ser negociado um aumento de 10 euros para as pensões mais baixas (até 600 euros). Pois o que a proposta demonstra é que haverá em 2017 um aumento de 10 euros para todas as reformas até 628 euros, mas só em Agosto. O Governo fez saber que já em Janeiro todas as pensões serão aumentadas, mas apenas de acordo com a inflação, o que é praticamente nada. Os 10 euros anunciados só chegarão ao bolso dos mais necessitados em Agosto de 2017.

 

Abolição da sobretaxa de IRS

Todos se lembram que a promessa do actual governo passava por extinguir a sobretaxa de IRS já em Janeiro próximo. No entanto, a extinção acontecerá de forma faseada, ao longo do ano de 2017. Ou seja, a taxa termina em Março para quem aufere até 20.261 euros anuais, termina em Junho para quem aufere entre 20.261 e 40.522 euros, em Setembro para quem aufere entre 40.522 e 80.640 euros e, finalmente, em Dezembro todos os outros (que não devem ser muitos).

 

Tarifa Social da Água

A Proposta de Lei refere que o Governo fica autorizado a criar um regime que vise a atribuição de tarifas sociais nos serviços de água. Contudo, a atribuição deste “desconto” será da competência dos municípios que não são obrigados a aplicar esta tarifa. Ou seja, os municípios só aderem a esta medida se quiserem, o que significa que não muda nada, uma vez que já existem municípios a aplicar a Tarifa Social na Água. Portanto, trata-se de uma medida muito bonita de se anunciar, mas que na prática pouco ou nada valerá, pois não tenho dúvidas que a maioria dos municípios não vai implementar esta medida. Portanto, o Governo fica autorizado a criar um regime nesta matéria para quê, concretamente? Se continuará a ser da competência dos municípios a sua aplicabilidade. Uma medida nestes termos, só vem corroborar a discricionariedade e desigualdade vigentes.

 

Manuais escolares gratuitos para os alunos do 1.º ao 4.º ano

Esta é uma daquelas medidas que me leva a pensar que a Esquerda, quando cede a fanatismos, aproxima-se perigosamente da Direita. Manuais escolares gratuitos para todos, do 1.º ao 4.º ano, sendo que têm como objectivo estender esta medida a todos os anos do ensino obrigatório nos próximos anos. Portanto, não importa o rendimento do agregado familiar, mesmo que seja de dezenas de milhares de euros. Manuais escolares de borla para todos. O Estado é farto! Esta medida torna-se ainda mais estúpida pelo simples facto de muitos municípios já a terem implementado.

 

Metade do subsídio de Natal (em Novembro) e restante em duodécimos

Porquê? Uns defendiam que deveria continuar a ser pago em duodécimos, outros preferiam que se efectuasse num só pagamento. Ou seja, uns preferiam receber a duodécima parte numa base mensal, já que na prática é a mesma coisa em termos anuais, contudo preferiam receber um bocadinho a mais mensalmente. Outros (os “chapa ganha chapa batida”) preferiam receber tudo de uma só vez, lá para a altura do Natal, para garantir que nessa época ainda tinham uns trocos para gastar. Enfim, preferências à parte, o Governo revela que não tem uma posição definida nesta matéria e, assim, procura agradar a gregos e troianos. A mim, parece-me mais uma pequena trapalhada desnecessária.

 

Em jeito de conclusão, importa referir que estas propostas não são o documento final do Orçamento do Estado para 2017, esse só ficará definitivamente formalizado após discussão e votação final na Assembleia da República, lá para o final de Novembro. Não obstante, e porque considero que há alguma seriedade na apresentação destas propostas, não resisto em considerar que estas propostas representam nada mais do que um bom manifesto de campanha para as eleições autárquicas do próximo ano.

 

Orçamentos com medidas calendarizadas a pensar em eleições? Não obrigado.

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Camaradas do PCP, comunista sou eu!

por contrário, em 08.10.16

O PCP não concorda com a proposta de aumento de 10 euros apenas para as reformas até 600 euros, veiculada pelo PS e BE para o Orçamento do Estado do próximo ano. Jerónimo de Sousa fez saber que nesta proposta “não há critério de justiça”.

 

Para o PCP, todas as reformas devem ser aumentadas. O PCP considera que só há critério de justiça se a proposta for direccionada a todos os pensionistas. Se for apenas para alguns, estará a fomentar a divisão entre reformados.

 

A mim, quer-me parecer que o PCP necessita de rever urgentemente os seus critérios de justiça social e igualdade. Jerónimo de Sousa até usou um exemplo comparativo, que eu vou aproveitar para demonstrar precisamente o contrário daquilo que defende o PCP, nesta matéria. Jerónimo de Sousa disse que a proposta do PCP “não agrava as desigualdades entre reformados” e que o aumento que propõem, em termos percentuais, é superior para os que têm reformas mais baixas. De facto, pode não agravar, mas também não contribui muito para a igualdade e justiça social que o PCP tanto tem defendido. Consideremos o exemplo dado por Jerónimo de Sousa, em defesa da proposta do seu partido:

 

- Uma pensão de 275 euros teria um aumento de 3,6%;

- Por outro lado, uma pensão de 1.000 euros teria “apenas” um aumento de 1%.

 

Visto assim, em termos percentuais, até parece uma proposta justa já que a reforma mais baixa teria um aumento “percentual” de quase quatro vezes mais (3,6 vezes). Contudo, a verdade é que um pensionista que recebe 275 euros por mês passaria a receber mais 9,90 euros, já um pensionista que recebe 1.000 euros seria aumentado em 10 exactos euros. Ou seja, em termos reais, e isso é que importa, um pensionista que recebe 1.000 euros teria um aumento real no seu rendimento mensal superior (pouco, mas superior) face a um que recebe apenas 275 euros. É a isto que o PCP chama de justiça?

 

Supondo que seria possível manter as mesmas taxas de aumento para ambas as pensões por um período de 20 anos, a reforma mais baixa (a de 275 euros) apenas conseguiria encurtar a diferença para a reforma de 1.000 euros em pouco mais de 50 euros.

 

Na verdade, os percentuais apresentados pelo PCP é que não têm nenhum critério, a não ser o de propor um aumento real de 10 euros para todas as reformas. Ou seja, se é para aumentar é para todos, mesmo para os que não necessitam. A mesma tese que defenderam na gratuitidade dos livros escolares… Enfim.

 

Mas a situação piora quando o PCP informa que as reformas mais altas seriam aumentadas em 0,8%. Ou seja, aquelas que rondam os 5.000 euros mensais teriam um aumento de 40 euros. Portanto, o desgraçado que aufere 275 euros leva um aumento de 10 euros, já o abastado que recebe 5.000 euros leva quatro vezes mais.

 

Concordo com Jerónimo de Sousa quando afirma que os pensionistas que recebem 700, 800, 900 ou 1000 euros não são ricos, no entanto, se esses não são ricos o que dizer dos que recebem apenas 275, 300 ou 400 euros?

 

Caríssimo Jerónimo de Sousa, não lhe parece prioritário começar por aumentar as pensões mais baixas? Não lhe parece mais justo reduzir o fosso entre as reformas “realmente” baixas e as de valor médio? Tomando o seu exemplo, não acha que seria até mais justo aumentar o pensionista que recebe 275 euros mensais em 20 euros, ao invés de lhe atribuir um aumento de apenas 9,90 euros, sendo que os outros 10 euros vão parar ao bolso do pensionista que já recebe 1.000 euros mensais (bem acima do salário médio mensal em Portugal)?

 

Às vezes até parece que eu é que sou comunista.

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  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D