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Supernanny - o debate. Qual debate?

por contrário, em 23.01.18

O canal de televisão SIC transmitiu ontem à noite um debate sobre o programa Supernanny. Não creio que aquilo a que assisti tenha sido um debate verdadeiro e isento. O debate foi capitaneado por Conceição Lino que, na presença da sua superior – Júlia Pinheiro – foi interpelando num tom inquisidor e reprovador as convidadas que contestam o programa, a saber, a dra. Dulce Rocha do Instituto de Apoio à Criança e a dra. Rosário Farmhouse da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens. Do outro lado, as defensoras do programa, Júlia Pinheiro (Direcção de Programas da SIC) e a dra. Cristina Valente (Psicóloga). A dada altura parecia que a SIC tinha convidado as representantes destas instituições (IAC e CNPDPCJ) para lhes dar um puxão de orelhas.

 

Foram esgrimidos os argumentos (contra e a favor) que toda a gente já havia discutido, desde que o primeiro programa foi para o ar. Obviamente que existirão sempre opiniões divergentes, como em tudo na vida. Contudo, creio que existem três momentos no debate que demonstram bem quem defende a posição mais razoável e aceitável.

 

O primeiro momento tem que ver com o facto de a SIC se escudar no facto de os pais das crianças terem concedido autorização para a exposição pública dos seus filhos. Pois bem, convém lembrar que os filhos não são propriedade dos pais e as crianças têm direitos indisponíveis. A direcção de programas da SIC tem a obrigação de saber que uma assinatura dos pais não é suficiente para isentar a estação televisiva das suas responsabilidades.

 

O segundo momento dá-se quando a Conceição Lino coloca a seguinte questão à dra. Dulce Rocha: “Como é que pode ter a certeza que esta exposição pode prejudicar e afectar a dignidade das crianças?".

 

Vejamos, esta é daquelas perguntas cuja resposta deve ser dada com outra pergunta, ou seja, “Como é que alguém pode garantir que esta exposição mediática não vai prejudicar as crianças?”. Não pode. Daí se depreende que, na defesa dos interesses e direitos dos menores, seria melhor evitar a exposição. A direcção de programas da SIC deveria ter começado por tentar responder a esta pergunta, para a qual obviamente não tem resposta.

 

Terceiro momento. A dada altura, Júlia Pinheiro, que não resistiu em clarificar quem estava, de facto, a conduzir o debate, interpelou directamente a dra. Rosário Farmhouse perguntando-lhe se ela desconhecia o facto de que muitas crianças portuguesas têm os mais variados aspectos das suas vidas expostos nas redes sociais. Portanto, a senhora directora de programas da SIC acabou por tropeçar nos seus próprios argumentos, quando considerou que a exposição nas redes sociais é frequente (apesar de condenável) e por isso pode também ser explorado pela televisão.

 

O canal SIC, na pessoa da sua directora de programas, assumiu com altivo paternalismo a postura de educador dos educadores, chamando a si e ao programa Supernanny a responsabilidade de formar bons pais. Júlia Pinheiro chegou mesmo a afirmar que a TV tem também o papel de ajudar a resolver os problemas das pessoas. Perigosa e presunçosa ideia não vos parece? Que a televisão pode e deve contribuir para uma boa e efectiva informação dos seus públicos, nos mais diversos assuntos, disso ninguém duvidará. Agora, que os problemas pessoais de cada um devam ser solucionados por intermédio de voyeurismo televisionado, disso eu já tenho sérias dúvidas.

 

Perguntinhas para a Júlia Pinheiro: Estaria disponível a televisionar todas as conversas que teve com o seu filho sobre homossexualidade? Concordaria em emitir as conversas que teve em família sobre anorexia? Estaria disposta a expor a sua vida familiar no grande ecrã? E não estamos a falar de menores. Ou só permite que passem as imagens de uma alegada família exemplo?

 

Há uns tempos, Júlia Pinheiro dizia o seguinte: "Uma das minhas filhas está neste momento internada num hospital público onde estão a tratar muito bem dela mas, infelizmente, não foi possível protegê-la da curiosidade dos outros".

 

Pois é dra. Júlia Pinheiro, quem protege agora as crianças visadas da curiosidade (ou algo pior) dos outros?

 

P.S. Não falei de audiências, do alegado pagamento às famílias envolvidas, nem da sonoplastia usada no primeiro programa, aquando das sapatadas para sacudir o pó da roupa… Mas também ninguém quer saber disso, não é verdade?

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