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17 milhões de horas extraordinárias no SNS e a resiliência

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Andam há semanas (ou será meses?) a falar sobre o exorbitante número de horas extraordinárias que os profissionais do SNS acumularam até ao final do mês de Setembro. Consta que são 17 milhões de horas extraordinárias acumuladas por todos os profissionais do SNS, incluindo médicos, enfermeiros e assistentes operacionais.

Ora, segundo informação do Ministério da Saúde, no SNS trabalham cerca de 30 mil médicos, 45 mil enfermeiros e 27 mil assistentes operacionais. Portanto, cerca de 102 mil pessoas, no total. Se dividirmos aquele enormíssimo número de horas extraordinárias pelo número total de profissionais, logo verificamos que, em média, cada trabalhador detém 167 horas de trabalho extra durante os primeiros nove meses do ano, o que perfaz cerca de 45 minutos de trabalho extraordinário por dia. Já não parece assim tanto, pois não? E se tivermos em conta que aqueles que mais se queixam são os médicos e os enfermeiros, o valor é ainda menor, um pouco mais de meia hora extraordinária de trabalho diário.

Uns poderão alegar que nem todos fazem horas extraordinárias, pelo que o número de horas dos outros aumentará consideravelmente. Pois, mas se for essa a realidade – e eu estou convencido de que sim -, então a história tem que ser contada da maneira correcta e não atirando para o ar um número que só tem como objectivo chocar a opinião pública. À boleia desta notícia ouvimos representantes dos médicos, dos enfermeiros e também dos assistentes operacionais - mas menos nesta última classe profissional -, a queixarem-se de exaustão física e psicológica. Como se pode concluir, nem todos – muito longe disso – terão qualquer razão para se queixar.

Tomemos ainda em consideração que alguns profissionais (médicos e enfermeiros) fazem, de facto, mais tempo de trabalho extraordinário diário, do que os 30 e poucos minutos que referi atrás. A verdade é que não será esse horário que os leva à exaustão, até porque muitos deles aproveitam o horário que têm livre para realizar ainda mais algumas horas extraordinárias no sector social e/ou sector privado. Sendo que muitos dos médicos que também prestam serviço no sector privado e social, são precisamente aqueles que não realizam qualquer tipo de horário de trabalho extraordinário no SNS. E provavelmente os que mais se queixam do excesso de trabalho.

É também bastante óbvio que alguns destes profissionais (médicos, enfermeiros e auxiliares) trabalham muito para além daquilo que seria suposto, mas não são – nem de perto – a maioria deles.

Portanto, isto de atirar um número exorbitante de horas extraordinárias para o ar, só para tentar aumentar a pressão social sobre o governo que se encontra em serviços mínimos, com o objectivo de obter aumentos salariais – apenas isso e nada mais – não está certo, porque como se pode ver, a maioria dos profissionais do SNS ou não faz qualquer trabalho extraordinário ou fá-lo em quantidade reduzida.

A senhora ministra da Saúde teve muita razão quando disse que “na contratação de médicos deveria ter-se em conta a capacidade de estes serem mais resilientes”. A carapuça não serve a todos, pois nunca é demais salientar que, felizmente, ainda existem muitos e bons médicos neste país, com uma inexcedível capacidade de trabalho. Mas não são a maioria. À afirmação da senhora ministra Marta Temido eu só acrescentaria duas coisas: a primeira tem a ver com outra característica que deveria ser tida em conta no perfil do profissional de saúde – a vocação para o serviço público; a segunda tem a ver com o momento que Marta Temido indicou como o da “contratação” que, no caso dos médicos, eu substitui-lo-ia pelo momento da admissão nas faculdades. É nesse momento que deve começar a separação do trigo e do joio.