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Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

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A greve “Duracell” dos médicos

Os médicos cumprem hoje o terceiro e último dia consecutivo da greve desta semana. Os médicos andam em reivindicações há muito tempo e se há classe profissional que tem razões para fazer greve é a classe médica, não haja dúvidas.

 

Os médicos alegam que estão a fazer greve em defesa dos utentes e do Serviço Nacional de Saúde. Ora bem, se é para defender os interesses dos utentes, quem deveria manifestar-se era os utentes. Por falar em manifestações, alguma vez alguém neste país viu médicos na rua a gritar palavras de ordem? Ah! Pois é… Esquecia-me que os médicos são uma classe profissional superior e que não apreciam enveredar pelas manifestações de rua. Qualquer outra classe profissional manifesta-se em grupo, nas ruas ou à porta do local de trabalho, até mesmo os enfermeiros o fazem, mas os médicos não. Os médicos são especiais. Preferem enviar dois ou três representantes da classe para a frente das câmaras de televisão, enquanto aproveitam para amenizar o burnout numa bela esplanada de praia.

 

Já aqui tenho referido que as greves dos médicos são, normalmente, mais do que um dia e quase sempre encostadas aos fins-de-semana ou feriados. Desta vez optaram por uma semana em que não há feriados e por deixar apenas um dia entre “fim-de-semana – greve – fim-de-semana”. Esperem lá! Com duas mini pontes dá para ficar a semana toda na mândria…

 

Voltando à inexorável defesa do superior interesse dos utentes, os médicos reivindicam que os cidadãos não podem ficar 1 ano à espera de um exame ou 2 anos à espera de uma consulta. Pois, com estes 3 dias de greve, milhares de utentes viram as suas consultas e/ou exames adiados por vários meses. Esta é a melhor defesa que os médicos fazem dos utentes do SNS.

 

O direito à greve é isso mesmo, um direito. Mas a classe médica é das últimas classes profissionais deste país com razões para reivindicar melhores condições. À frente deles, com muito mais razões de queixa, praticamente todos os trabalhadores. Sim, porque o que está em causa nesta greve é a redução do número de utentes por médico, com a consequente redução da carga de trabalho, bem como o aumento salarial. É apenas isso que os médicos pretendem reivindicar. O resto são só balelas para endrominar a opinião pública.

 

Querem melhorar o SNS e o atendimento aos utentes? Comecem por cumprir horários, reduzir drasticamente as pausas para café e tabaco e, já agora, sejam mais simpáticos e menos emproados. Se tiverem competência para tal, já será um grande contributo e verão que não dói nada.

 

Agora, deixar de atender os doentes não. Isso é tudo menos defendê-los.

 

A minha dúvida é se o veto tem afecto

O Presidente da República vetou a lei que o Parlamento havia aprovado há cerca de um mês, sobre a autodeterminação de género. O veto presidencial é um direito que assiste ao Sr. Presidente da República mas, neste caso concreto, receia-se que se trate apenas de cumprir um uma etapa que visa emperrar uma lei que o Parlamento voltará a aprovar, com toda a certeza.

 

O Presidente considera que deve existir um relatório médico, para que os cidadãos com idades compreendidas entre os 16 e os 18 anos possam proceder à mudança da menção do sexo e da alteração do nome no Registo Civil. Recorde-se que a nova lei aprovada no Parlamento a 13 de Abril deste ano passaria a possibilitar que tal procedimento passasse a ser possível apenas sem a necessidade de um relatório médico, mas com a anuência dos representantes legais.

 

Ora, porquê vetar esta lei? Só se for para vincar a posição pessoal do Presidente sobre esta matéria, já que a lei voltará ao Parlamento para ser aprovada em definitivo.

 

Marcelo também não convence quando tenta justificar a necessidade de um relatório médico. Marcelo talvez não tenha percebido que o que está em causa é o direito à autodeterminação, que constitui um Direito Humano fundamental. E eu até tenho ouvido dizer por aí que Marcelo é um especialista em Direitos.

 

Marcelo deveria saber que quando está em causa a defesa dos direitos fundamentais dos cidadãos é ao Legislador que cabe fornecer os meios necessários para que tal aconteça. Não se trata de um problema de aferição clínica. Marcelo entenderá que compete aos médicos entrar na cabeça e no corpo dos cidadãos e depois decidirem o que é melhor para eles próprios, porque eles, os cidadãos, estão longe de saberem quem são.

 

Portanto, voltamos à velha questão da necessidade de haver um relatório médico, porque os médicos – esses grandes especialistas em Direitos Humanos – é que percebem da coisa. Já para não falar na perversidade que a eventual inclusão deste requisito pode causar, se pensarmos que os ricos terão sempre a possibilidade de “comprar” o parecer favorável de um relatório médico, quando o procedimento se afigure mais complicado ou demorado. Os mais desafortunados poderão sempre ir para as filas do SNS e esperar 2 anos por uma consulta de avaliação, entretanto já terão 18 anos e o problema resolvido.

 

Se eu não tivesse a certeza que Marcelo é um político de Esquerda, até diria que vetou esta lei só para injectar mais cinco réis de oxigénio no balão da Direita.