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Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

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RAPIDINHA

A propaganda intensifica-se. As taxas de juro só baixam - e praticamente nada - porque estamos em cima das eleições europeias. Apenas isso.

PSD e os perfis de Facebook

O PSD, partido que tem vindo a apostar nos banhos de ética e honradez, entende que a integridade moral dos seus militantes não pode ser posta em causa em virtude das suas acções nas redes sociais, a menos que estejam a utilizar um perfil institucional.

No passado dia 19 de Abril, um pretenso boy da Câmara Municipal da Trofa publicou um texto na rede social Facebook que, entre outras alarvidades, dizia o seguinte: “Se houver quem ponha aquele espaço [Assembleia da República] a funcionar como uma câmara de gás, eu pago o gás”. Posteriormente, o Presidente da Câmara Municipal da Trofa, Sérgio Humberto (militante do PSD e eleito pelo PSD) fez “gosto” na publicação do seu súbdito.

Quando questionado sobre o assunto, o presidente da distrital do PSD Porto disse: “Não estamos a falar da página oficial do autarca”.

Portanto, para o PSD, este caso seria grave se o Presidente da Câmara da Trofa tivesse utilizado a página institucional do Facebook, uma vez que utilizou a sua conta pessoal não há nada a apontar à conduta exemplar do senhor Sérgio Humberto. É que o Sérgio Humberto que está por detrás da conta de Facebook institucional é um reputado político, honrado, sensato, pleno de probidade e civismo. Já o Sérgio Humberto que usa a conta pessoal do Facebook é apenas um desqualificado “professorzeco” de ginástica que ainda não tomou consciência da dimensão da sua idiotice.

Ora, para os dirigentes do PSD, quaisquer militantes do seu partido, sobretudo aqueles que desempenham cargos públicos, estão sempre isentos de responsabilidades pelas acções que praticam nas redes sociais, desde que o façam numa conta pessoal. O PSD está a evoluir, bem se vê. Dantes usavam a JSD para o trabalhinho sujo, agora atalham caminho com as suas contas pessoais de Facebook.

Onde será que esta gente se instrui? Só pode ser na universidade de Verão…

Onde pára a solidariedade (e moralidade)?

Tenho ouvido e lido muita gente a dizer que esta pandemia tem servido para trazer o melhor das pessoas e instituições ao de cima, que a crise que atravessamos nos vai deixar mais unidos que nunca, mais solidários, mais iguais.

Será mesmo verdade? Eu estou disposto a ser convencido mas, em plena pandemia, já se percebeu que aqueles que mais precisam de alterar comportamentos, aqueles que deveriam sentir maior apelo à mudança e ao espírito solidário são os que, regra geral, estão pouco interessados nisso.

Começando pela União Europeia, que nunca deu grandes demonstrações de unidade, assim que foi posta à prova a solidariedade entre Estados-Membros, no decorrer desta pandemia, o que foi que assistimos? Um passar de culpas e insinuações rasteiras sobre a tragédia humanitária que assola alguns países comunitários. Qual será o significado de comunidade para essa gente?

Já por cá, o que têm feito os grandes grupos empresariais e instituições bancárias que nos faça acreditar que, de facto, estamos mais unidos e solidários?

A banca, apesar de todos os apelos (inclusivamente do Presidente da República), ainda não abriu o bico para apresentar medidas concretas de apoio às famílias e tecido empresarial, nomeadamente às pequenas e médias empresas.

E os principais operadores da área energética? O que estarão dispostos a fazer pelas famílias e empresas? São anos e anos consecutivos com lucros astronómicos, será que agora vão prescindir de algum lucro em favor de quem mais precisa?

E as operadoras de telecomunicações, que à semelhança das anteriores também apresentam pomposos lucros, estarão disponíveis para aliviar a factura das famílias e empresas, neste período?

Mais grave ainda são os muitos casos de despedimento que se tem verificado em inúmeras empresas, que não só despedem como em simultâneo estendem a mão para o Estado.

E a lista poderia continuar. Só a título de exemplo, nos últimos dias vi o administrador de uma grande empresa portuguesa a dar uma entrevista a um canal de televisão, onde choramingava pelo apoio do Estado, apenas 3 semanas após a diminuição drástica da produção da sua unidade fabril, alegando que quase já não tinha dinheiro para pagar salários. Portanto, esse senhor, que se fartou de ser elogiado pelas suas capacidades de gestão, que apareceu inúmeras vezes em capas de revistas e jornais de negócios como sendo um empreendedor e CEO notável (uma espécie de Zeinal Bava) e que, segundo consta nos Relatórios e Contas, conseguiu que a sua empresa apresentasse muitos milhões de lucro ao longo de vários anos, ao fim de 3 semanas de paragem no ciclo produtivo já está a berrar que não pode pagar salários. 

Resumindo, não vejo grandes sinais de mudança. As melhores atitudes (felizmente também são muitas) vêm daqueles que habitualmente já dão o melhor de si e que fazem o que podem em favor do bem-estar colectivo. Os outros, acima enunciados, ainda não deram grandes demonstrações de transformação comportamental, algo que faça jus à responsabilidade social das empresas e que nos faça acreditar que, afinal, elas não se preocupam apenas com a maximização dos lucros assente na depauperação dos trabalhadores e, claro está, agora ainda mais evidente, na sugação do Estado.

Péssimo, general Eanes, péssimo

O antigo Presidente da República, general Ramalho Eanes, esteve na RTP para uma entrevista onde abordou a actual pandemia. As suas opiniões sobre a actual situação teriam (provavelmente) passado despercebidas, não fora o facto de o senhor general ter-se deixado contagiar por esse outro vírus que tem infectado algumas figuras públicas e que as leva a proferir frases chocantes e emotivas, com o único objectivo de as catapultar para a posteridade que, nos tempos que correm, dura apenas 2 ou 3 dias.

A certa altura, o general Eanes decidiu dizer o seguinte: “Se necessário, (nós, os velhos) oferecemos o ventilador ao homem que tem mulher e filhos”. Disse também que: “Nós, os velhos, não saímos de casa…”. Ora, não é verdade, porque o senhor general deslocou-se até aos estúdios da RTP, quando não o deveria ter feito.

Bem, voltemos à primeira frase, aquela que fez manchetes em jornais, que circulou pelas redes sociais e que levou muitos a opinar sobre a mesma. E agora é a minha vez.

De facto, foram muitos os que elogiaram a afirmação do antigo Presidente da República, atribuindo-lhe uma enorme humildade, generosidade e humanidade. Pois eu não posso estar mais em desacordo com todas essas opiniões e, principalmente, com aquilo que disse o general. Mas que raio de humanidade é esta que, num cenário mais catastrófico, poria de lado “os velhos” em favorecimento de um homem (mais novo) que tem mulher e filhos?

Se o facto de o general Ramalho Eanes ter 85 anos lhe confere autoridade para dizer o que disse, então, posso depreender que, tendo eu menos de metade da sua idade posso contrariá-lo com toda a veemência. É claro que todos somos livres de termos as nossas opiniões, mas aquilo que o general Ramalho Eanes fez, numa entrevista à televisão pública emitida para todo o país foi, sem dúvida, uma tremenda irresponsabilidade. É profundamente lamentável que alguém na sua posição diga aquilo que disse. E logo o general Eanes que, em abono da verdade, até costuma ter opiniões ponderadas e assertivas. Se calhar disse-o porque sabe muito bem que, apesar dos seus 85 anos, por ser quem é, jamais terá de passar por uma situação desta natureza. Logo aí, a sua afirmação bombástica perde legitimidade.

Não, meu caro general, a vida não é como na tropa, onde há patentes diferenciadoras. Onde o soldado raso vai para a frente da batalha dar o peito às balas e o general fica na retaguarda. A vida é outra coisa. E humanismo é, antes de tudo, igualdade entre todos os seres humanos.

Se esta crise sanitária nos levar ao ponto de ruptura nos hospitais (esperemos que não), em que poderá ser necessário decidir a quem atribuir os ventiladores, o critério nunca deverá ser o da idade. Desde logo porque isso não garante o sucesso da hipotética opção. Quem esteve atento ao que se tem passado nas últimas semanas ou meses, um pouco por todo o mundo, apercebeu-se que existem muitos casos de pessoas muito idosas, algumas com mais de 100 anos, que tiveram a sua vida por um fio nos cuidados intensivos, ligadas a um ventilador e, felizmente recuperaram. Por outro lado, algumas pessoas bastantes mais novas e até jovens, se calhar alguns deles com mulher e filhos, infelizmente não resistiram. Portanto, o critério defendido pelo general Eanes não faz qualquer sentido. Apenas chocou e emocionou os mais distraídos e superficiais.

Mais ainda, imaginemos essa hipotética situação limite e catastrófica que obrigaria os médicos a ter que optar a quem atribuir os ventiladores. Se fosse seguido o conselho do general Eanes, “os velhos” teriam que dar a vez aos homens mais novos com mulher e filhos. Então, e quando todos “os velhos” já tivessem sucumbido, qual seria o segundo factor preferencial do general Eanes para a atribuição dos ventiladores? Fiquei curioso. Será que iriamos partir para o estatuto social dos maridos com filhos? Ou passaria a contar o número de filhos? Quem tem mais filhos passa à frente? Será que iriamos considerar a profissão de cada um e estabelecer um grau de importância? Do tipo, os patrões devem ter acesso preferencial a ventiladores porque são pessoas que dão emprego a muita gente e a sociedade precisa mais deles do que de um reles operário. Ou então, os sem-abrigo passam a estar no fundo da estratificação de acesso a ventiladores, bem ali junto “aos velhos”, porque já não têm nada para oferecer à sociedade. Mas o que é isto?

Já agora, senhor general Ramalho Eanes, na sua visão “humanista” sobre este assunto, “os velhos” devem dar o ventilador só aos homens que têm mulher e filhos ou a qualquer outro indivíduo significativamente mais novo? Se esse homem for solteiro e não tiver filhos já não merece passar à frente do “velho”?

Caro general Ramalho Eanes, aquilo que o senhor disse foi extremamente irresponsável e desumano. Foi também muito perigoso, porque vindo de alguém com as suas responsabilidades, pode dar azo a situações muito perigosas. Os velhos, como o senhor disse, já são suficientemente mal tratados neste país, não precisam de ouvir conselhos desta estirpe.

O critério, nesta pandemia ou em qualquer outra situação, nunca poderá ser o da idade, do género, da religião, da posição social ou da situação financeira. Não. O critério terá que ser sempre um e um só: o critério clínico. Nada mais.