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Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

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O racismo não é uma questão de interpretação

O que aconteceu ontem à noite no jogo da Liga dos Campeões entre o Paris Saint-Germain e o Istanbul Basaksehir voltou a colocar o racismo nas primeiras páginas das notícias.

A situação não é de fácil avaliação, pelo que não compreendo a razão pela qual se assume, de imediato, que se tratou de um acto de racismo. Os histéricos “anti-racistas” saem logo para a rua a gritar que se tratou de um inaceitável episódio de racismo, quando aquilo que se sabe é que um indivíduo de raça branca chamou de “negro” a um indivíduo de raça negra. Portanto, atingimos o ponto em que chamar negro a uma pessoa de raça negra é racismo. Já chamar branco a uma pessoa de raça branca não constitui qualquer situação de racismo.

É, na maioria das vezes, muito difícil perceber qual é a intenção que está por detrás de uma afirmação que contenha uma referência à cor da pele. Daí resulta que o racismo não pode ser uma questão de interpretação. O racismo existe, é factual e não deixa margem para qualquer dúvida a quem quer que seja. Quando a situação é dúbia, não se compreende por que razão cai o Carmo e a Trindade.

O senhor Pierre Webó, o treinador-adjunto do Istanbul Basaksehir que foi expulso do banco, na partida de ontem à noite em Paris, terá interpretado o facto de o quarto árbitro ter-se referido à sua pessoa usando a palavra “negro” como sendo uma grande ofensa. Sinceramente, não sei se terá razões para isso. Tal como referiu Jorge Jesus, quem não estava lá, no local, não pode saber exactamente o que se passou, pelo que não poderá ajuizar assertivamente.

Porque agora, uns podem dizer uma coisa, outros o seu contrário. Aquilo que é factual é que o quarto árbitro informou o árbitro principal para este dar ordem de expulsão a um elemento do banco do Istanbul Basaksehir. Quando o árbitro principal se aproximava do banco perguntou ao quarto árbitro quem deveria ser expulso, ao que este lhe respondeu: “É o negro que está ali, vai ver quem é”.

Webó ter-se-á sentido ofendido com a forma como o quarto árbitro falou. Mas, será que isto pode ser considerado ofensivo ou ser entendido como racismo? Uma vez mais, há que ter presente que o racismo não é uma questão de interpretação, mas sim um tipo de comportamento opressor e discriminatório que não deixa margem para dúvidas.

Webó perguntou ao quarto árbitro: “Porque é que disseste “negro”?”. Ora, sem qualquer tipo de escárnio, parece-me que o quarto árbitro terá usado a palavra “negro” porque Webó é negro. O quarto árbitro, provavelmente, não sabia o nome do senhor Webó que, no entanto, era o único indivíduo de raça negra que faz parte da equipa técnica. Portanto, dizer ao árbitro: “É o negro que está ali, vai ver quem é”, pode apenas significar: “é o indivíduo de raça negra que faz parte da equipa técnica e que está ali no banco, vai lá identifica-lo porque eu não sei de quem se trata”.

Por que razão há uma brigada de histéricos que prefere depreender que o quarto árbitro quis dizer: “é o animal do preto com cara de macaco, que devia estar em África a comer ramos de árvores e não aqui a chatear as pessoas”. Este histerismo convulso é tão inaceitável quanto o próprio racismo, porque não é o caminho para o combater.

Houve quem dissesse que caso se tratasse de uma pessoa “branca”, o quarto árbitro não teria dito “é o branco que está ali, vai ver quem é”. Claro que poderia agir da mesma forma, desde que isso constituísse a forma mais rápida e intuitiva de identificar a pessoa. Ou seja, se naquele banco estivessem várias pessoas de raça negra e apenas um branco, provavelmente, o quarto árbitro teria recorrido à cor da pele do indivíduo para mais facilmente o identificar. E tenho quase a certeza que nenhum indivíduo de raça branca se sentiria ofendido por ser chamado de “branco”. Por que razão um indivíduo de raça negra há-de sentir-se ofendido por ser chamado de “negro”?

A menos que consiga provar que a intenção é, de facto, hostil, discriminatória e que contém um comportamento de segregação racial inequívoco. E não apenas por ter interpretado como tal.

Resumo do anúncio de Marcelo (o de logo à tarde)

Marcelo Rebelo de Sousa vai (finalmente) anunciar, logo às 18 horas, a sua recandidatura à Presidência da República. Marcelo é tão previsível que eu até já posso avançar com um resumo daquele que será o seu anúncio ao país.

Mas, primeiro, importa salientar a razão pela qual Marcelo deixou para tão tarde o anúncio e a consequente formalização de algo que toda a gente já sabia que ia acontecer. É que o estatuto de candidato à Presidência da República é bastante pior do que o estatuto de Presidente em campanha. Aliás, Marcelo foi – até hoje - um não candidato à Presidência da República que fez mais campanha do que todos os candidatos juntos.

Então, vamos lá sintetizar as razões que Marcelo vai evocar logo à tarde, sem que antes nos dê uma desculpa esfarrapada por só estar a anunciar a sua candidatura agora. Marcelo – imaginemo-lo com capa e espada – vai escudar-se na pandemia, que tem exigido muito da sua condição de Presidente da República, pelo que ainda não teve tempo para pensar na recandidatura à Presidência.

De seguida, vai alegar que a situação da pandemia vai continuar a exigir muito do Presidente da República, pelo que (ele) não pode, uma vez mais, virar as costas aos portugueses (e às portuguesas também), e a Portugal, e ao país, e à nação. Ah valente!

Vai também argumentar que o próximo ano será muito exigente para o país, com o combate à pandemia, a vacinação, a recuperação económica e, ainda, a Presidência Portuguesa do Conselho da UE. Desafios demasiado exigentes para alguém que não se chame Marcelo Rebelo de Sousa.

Vai ainda alargar o âmbito da sua recandidatura a temas como o combate às alterações climáticas – que fica sempre bem em qualquer candidatura – e, como bom católico romano que é, não vai esquecer os votos da Igreja e vai dizer que prometeu ao Papa Francisco que o receberia em Portugal, na condição de Presidente, claro.

Naquele tom pastoral que o caracteriza, deverá ainda alertar para os radicalismos, para o cumprimento da Constituição e o garante do Estado de Direito… Enfim, o costume.

Use sempre o preservativo, excepto no Natal

“Use sempre o preservativo, excepto no Natal”.

Este título seria, muito provavelmente, o slogan de Marcelo e Costa, caso estivéssemos a combater uma doença sexualmente transmissível.

É que, tal como se podia antever, a comunicação que o Primeiro-ministro fez ontem ao país não divergiu da mensagem do Presidente da República, na Sexta-feira. Aliás, António Costa ainda foi capaz de conferir maior ênfase ao raciocínio paradoxal que ambos têm protagonizado, ao longo de todos estes meses de pandemia.

Se na Sexta-feira, Marcelo Rebelo de Sousa dizia que era necessário “permitir às famílias o tão esperado encontro (natalício) evitando, ao mesmo tempo, um novo aumento de casos duas a três semanas depois”. Ontem, António Costa seguiu o exemplo presidencial e acentuou a mesma ideia, dizendo que este Natal deve ser “um momento de partilha e encontro entre famílias”.

Mas, tal como Marcelo havia feito no dia anterior, acrescentou o aviso: “é fundamental que as famílias devem organizar os momentos de partilha tendo em conta os riscos que existem…”.

Costa foi ainda mais explícito ao dar como exemplo o facto de que “cada vez que respiramos e falamos, libertamos partículas tão pequenas, que ficam suspensas no ar e que os outros podem estar a respirar” e, por isso, é importante evitar “confraternizações com muitas pessoas, por longos períodos sem máscara, em espaços pequenos e fechados”.

E quando eu achava que António Costa já não podia proferir mais patetices sobre este assunto, eis que ele ainda perde todo o pudor e remata dizendo que é “fundamental o momento de encontro em família, mas em segurança… em espaços abertos e arejados”.

A pergunta que se impõe fazer a António Costa e que nenhum digníssimo jornalista foi capaz de fazer no momento é: Como é que o Primeiro-ministro concebe na sua mente a possibilidade de uma reunião familiar, sem que as pessoas estejam sem máscara por muito tempo e sem que estejam em espaços pequenos e fechados?

Achará António Costa que a maioria dos portugueses vive em palácios, com enormes salões de festa? Ou ter-lhe-á passado pela cabeça que pelo Natal vão estar uns 30 graus e, por conseguinte, as pessoas vão poder reunir-se em espaços abertos e bastante arejados?

É lamentável constatar que os principais políticos da nação não têm coragem para dizer (e fazer) aquilo que se espera deles. Será assim tão difícil passar a mensagem de que, neste Natal, é mesmo importante que ninguém saia de casa? Então, anda o país com sucessivos estados de emergência, recolheres obrigatórios e impossibilidade de circulação entre concelhos para no Natal baixar a guarda e deitar tudo a perder? É muito difícil perceber que neste combate não há margem para se pedir descontos de tempo, principalmente na pior fase da pandemia?

Não vejo necessidade de implementar mais regras do que aquelas que já estão em vigor, mas não aceito o discurso de facilitismos no Natal. Estamos a viver um ano diferente e muito difícil, pelo que o melhor presente de Natal que podemos pedir, neste ano, é o de que no próximo ano ninguém tenha que faltar à principal festa familiar por causa dos desmandos no Natal deste ano.

Se em Janeiro tivermos um aumento de novos casos, o que dirão Marcelo e Costa? Que os portugueses relaxaram demasiado no Natal?

Tenham juízo e sejam frontais. A mensagem que Marcelo e Costa têm que passar é a de que “ninguém deve sair de casa para confraternizar e que as regras em vigor nos últimos fins-de-semana são para se manter no Natal”.

É bom passar o Natal em família, mas convém não esquecer que os ajuntamentos familiares, nesta altura, pode significar a troca de presentes envenenados entre as pessoas que mais se gostam.

Espero que os portugueses se lembrem que no Natal, muitos portugueses estarão nos hospitais a passar um mau bocado e que muitos profissionais de saúde não poderão sequer estar em suas casas, porque vão estar ao serviço, no combate à pandemia.

É um dever cívico ficar em casa.

Acabou a greve à fome

O grupo de empresários da restauração “A pão e água” que esteve em greve à de fome, junto à Assembleia da República. Os grevistas diziam que só abandonariam o local depois de serem recebidos pelo Primeiro-ministro ou pelo Ministro da Economia, ou então, de ambulância para o hospital, ou ainda, directamente para o cemitério.

Pois bem, não aconteceu nenhuma das quatro impreteríveis condicionantes e o grupo lá pôs fim à greve à de fome. Foram recebidos pelo Presidente da Câmara de Lisboa, é certo, mas Fernando Medina não pertence ao Governo, não conduz ambulâncias nem carros fúnebres, que se saiba.

Note-se que este grupo de empresários conseguiu, inicialmente, granjear simpatias junto da opinião pública, tendo sido muitos os que decidiram apoiá-los no protesto, por intermédio de uma petição que reuniu milhares de assinaturas. A verdade é que começou a surgir várias notícias de quem realmente eram aquelas pessoas que estavam ali em protesto, dizendo que estavam a lutar pela sobrevivência e, se calhar, o melhor mesmo era desarmar a tenda, antes que o feitiço se virasse contra o feiticeiro.

Os meninos que ali acamparam por sete dias, a água e chá, nunca perderam a boa disposição e quem os via, diariamente, ficava com a sensação de que estavam cada vez mais rijos. Até parecia que estavam a fazer greve à fome. E depois de sete dias sem comer nadinha - nem uma migalhinha para enganar o estômago - o que fizeram os grevistas assim que terminou a greve? Atracaram-se a uma valente piza. Para quem não sabe é a melhor comida a ingerir, especialmente após um longo período de abstinência. É um alimento de fácil digestão e com muito pouca probabilidade de ser rejeitado por um estômago que já não recebe comida há mais de sete dias.

Após a desmobilização não sei bem o que terá acontecido, mas suponho que terão ido todos para a casa do Stanisic, porque depois de tantos dias ausente, aquela cozinha deve estar um inferno.

Resta-me só imaginar a razão pela qual o André Ventura não saiu da toca para mandar o Stanisic para a terra dele.

Presidente não disse o que devia

O Presidente da República dirigiu-se hoje à noite ao país, para renovar o estado de emergência. Falou sobre a situação actual da pandemia e até demonstrou alguma preocupação com o facto de poder haver um novo acréscimo de casos e consequente aumento da pressão no SNS, logo no início do ano, isto se não houver responsabilidade e juizinho no Natal.

Mas o que significa ser responsável no Natal? O que espera o Presidente da República quando, ele próprio, – e ao que parece, também o Governo – entende que deve haver um aligeirar das medidas restritivas no Natal? De que vale o esforço das medidas que têm sido implementadas e respeitadas pela maioria dos portugueses, se é para deitar tudo a perder no Natal? Será que o vírus também vai passar o Natal a casa da família? Será muito difícil perceber que esta batalha não pode fazer um intervalinho de relaxamento, sobretudo no pior período da pandemia?

É inconcebível que até se considere a possibilidade de deixar as pessoas assistirem à missa do galo. O que é isto? No período mais crítico da pandemia há quem se preocupe com a realização da missa do galo. Inacreditável.

Veremos o que vai dizer, amanhã, o Primeiro-ministro. Mas receio que não vá acrescentar muito mais do que aquilo que já foi dito por Marcelo.

Aquilo que Presidente da República e Primeiro-ministro deveriam dizer era algo muito simples: “Por favor, fiquem em casa neste Natal”. Sim, é isto que deveria estar a ser dito pelas autoridades políticas e da saúde, porque é óbvio aquilo que vai acontecer se houver ajuntamentos familiares. Quando falo de ajuntamentos familiares, refiro-me a todas as reuniões que comportem pessoas que não vivem na mesma casa. É isto que deve ser evitado, porque já se sabe o que este tipo de reuniões origina.

Não interessa nada determinar um número máximo de pessoas por casa, porque isso não garante nada. Por exemplo, qual o interesse em dizer que os ajuntamentos deverão ter, no máximo, seis pessoas? Seis pessoas numa sala de dez metros quadrados, não é a mesma coisa que seis pessoas numa sala com 50 metros quadrados. E as condições de climatização e circulação do ar também não são iguais em todas as casas. Não há qualquer interesse em determinar um número máximo, porque esse número máximo por família já está determinado por natureza, ou seja, o número de pessoas que compõem os agregados familiares – os que vivem na mesma casa.

Portanto, a mensagem não pode ser outra: Por favor, fique em casa neste Natal. Por si, pelos seus e por todos.

O drama, a tragédia e o horror na restauração

Desde a passada Sexta-feira que a greve de alguns empresários do ramo da restauração tem estado na ordem do dia da comunicação social. São pouco mais de meia dúzia, mas têm um destaque como se fosse um país inteiro a protestar.

Esses empresários estão em greve de fome e dizem que só terminam o protesto quando forem recebidos pelo Governo. Entretanto, o Ministério da Economia já fez saber que não reunirá com pessoas, a título individual, sendo que estão previstas conversações com os representantes do sector. Mas, ainda antes destas conversações, já o Governo havia aprovado medidas de apoio ao sector da restauração. Para quem não se informou ou anda distraído, o Governo aprovou um apoio superior a mil milhões de euros para este sector, repito, mais de mil milhões de euros, sendo que cerca de metade desses apoios são a fundo perdido (através do Lay-off simplificado e do Apoio à Retoma Progressiva).

Se é verdade que este sector é um dos mais afectados pelos efeitos da pandemia – mas não é o único -, também é verdade que é um dos mais apoiados pelo Estado, senão mesmo o mais apoiado.

Há uma parte do apoio já garantido pelo Estado que se baseará (e bem) no valor de facturação declarado. Ora, este “pormenor” desagradou muitos empresários da restauração que, como toda a gente sabe - mesmo depois da implementação do mecanismo E-factura – continuam a não declarar as receitas reais, pelo que agora receberão em função do valor que lhes apeteceu declarar. Portanto, não apreciam cumprir com as obrigações que têm para com o Estado e quando a bota aperta querem que o Estado lhes dê este mundo e o outro.

Clamam por apoios a fundo perdido, pela isenção da TSU e ainda o abaixamento da taxa de IVA para os 6%. Pois, mais parece que estão a aproveitar a situação actual - que é deveras difícil, mas não apenas para os empresários da restauração – para conseguir algo que anseiam há muito tempo: IVA à taxa de 6%. Faz algum sentido exigir o abaixamento da taxa de IVA?

Qualquer pessoa percebe que o abaixamento da taxa de IVA na restauração, neste momento, não iria fazer aumentar o consumo. As pessoas não deixaram de ir aos restaurantes (ou ir com menor frequência) por causa do IVA. O que toda a gente sabe é que alguns empresários da restauração desejam a taxa de IVA no valor mais reduzido, não para ter mais clientes ou para baixar o preço aos clientes, mas para ganhar mais algum. Basta ver o que aconteceu quando a taxa de IVA baixou (e nesse caso, foi justo o abaixamento) de 23% para os 13%. Nessa altura, os restaurantes não reflectiram esse abaixamento no valor do serviço, tal como não o fariam, caso a taxa voltasse a baixar.

As pessoas não vão, ou vão menos vezes aos restaurantes por questões de saúde e não por qualquer outra razão. Estar a fazer esta exigência, neste momento, só demonstra que os manifestantes estão neste protesto com segundas intenções.

Outra falsa questão que estes empresários alegam é que estão a cumprir com todas as regras de higiene e segurança. Não quero dizer que não cumprem com as regras, mas, será assim tão difícil perceber que, independentemente de cumprirem com todas as regras obrigatórias e recomendadas, o facto de várias pessoas estarem juntas num espaço fechado e sem máscara – que se saiba ainda não é possível comer e beber com a máscara – aumenta, e muito, o risco de contágio? E não venham com a treta de que os casos de contágio em restaurantes ronda os 2% porque, apesar de ser praticamente impossível determinar o número de contágios, é lógico admitir que os contágios são em muito maior número nos locais onde as pessoas se aglomeram sem máscara.

Alguns restaurantes podem estar a passar um mau bocado, mas não é a maioria dos casos. Certamente todos tiveram quebras na facturação, mas muitos souberam adaptar-se e, no mínimo, estão a conseguir aguentar-se. Serviços como o take-away e a entrega ao domicílio têm permitido suportar a situação.

E mesmo que alguns não tenham forma de adaptar o seu serviço, há sempre uma última possibilidade de recurso, ou seja, podem fechar as portas temporariamente (por alguns meses). Os portugueses não vão morrer à fome como sustentam os grevistas. Até porque em Portugal há claramente um excesso de restaurantes, mas isso dava outra discussão que agora não interessa.

Alguns já estão a encerrar temporariamente a sua actividade. Se foram cumpridores das suas obrigações para com o Estado no passado, agora terão direito ao subsídio de desemprego. É uma situação desejável? Claro que não. Nunca é. Mas quando está em causa a sobrevivência das famílias – como fazem questão de salientar – é a solução que, no momento, garante pelo menos a sobrevivência. Não me digam que estão preocupados com o impacto que isso pode causar nas contas do Estado. Se fosse isso, não estariam a clamar por tantos apoios. Se calhar, nesta hipotética solução de curto-prazo, muitos não teriam direito ao recebimento do subsídio de desemprego, ou então, teriam acesso a um de valor reduzido, correspondente ao valor declarado. E isso pode ser um problema. Lamento, mas quem aprecia fugir às contribuições não pode querer receber muito.

Tenham paciência, mas não me sinto mais comovido com a situação dos senhores dos restaurantes do que com a dos muitos outros trabalhadores por conta de outrem que perderam os seus empregos. E, sobretudo, a situação dos muitos trabalhadores independentes que também estão impedidos de desempenhar normalmente as suas funções. Conheço dezenas de trabalhadores independentes (e serão milhares por todo o país) que têm as suas actividades parcial ou completamente paradas desde Março. A maioria deles já não recebe qualquer apoio do Estado desde o mês de Agosto. Refiro-me aos muitos formadores, comissionistas, consultores, guias-intérpretes, publicitários, organizadores de eventos, fotógrafos, artistas, etc. Estes não têm apoios a fundo perdido, Lay-off, apoios à retoma ou linhas de crédito.

E, se pensarmos bem, quando a pandemia terminar, alguns sectores de actividade recuperarão muito mais depressa que outros. A restauração e a hotelaria estarão entre os que mais rapidamente retomarão a normalidade. Aliás, estes dois sectores foram dos que tiveram menos quebras durante o último Verão, em plena pandemia.

Às vezes fica-se com a sensação de que aqueles que alinharam nesta greve de fome se comportam como se estivessem num reality show.

O antijogo e a vergonha no futebol português

Há quem se queixe que algumas equipas da Primeira Liga recorrem ao antijogo e que isso envergonha o futebol português.

Se calhar, as equipas que recorrem ao antijogo fazem-no porque não têm a possibilidade de entrar em campo com 14 elementos, mais alguns “varápios” que estão de fora. Essa é que é a maior vergonha do futebol português.

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