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Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

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Esmiuçando Cavaco...

O país soube oficialmente, na passada sexta-feira, que as negociações que tinham em vista alcançar um acordo tripartidário proposto por Cavaco Silva haviam resultado naquilo que todos já sabiam, ou seja, nada. Saliente-se o facto da comunicação oficial ao país ter sido feita por António José Seguro e não pelo Presidente da República. Cavaco Silva optou por se dirigir aos portugueses, por quem nutre uma especial solidariedade, apenas 48 horas depois, mas não foi por maldade foi apenas devido ao jet lag (descompensação horária) causado pela viagem às Selvagens. 11 dias depois da proposta imbecil que havia lançado sobre os partidos da coligação e o PS, Cavaco Silva provou uma vez mais aquilo que pretendia com toda esta palhaçada: arrastar o PS para o pântano e tentar reabilitar a sua imagem pessoal.

Vejamos, Cavaco Silva trouxe para a discussão política, propositadamente, o tema “eleições antecipadas” porque sabia que dessa forma estava a aguçar o apetite de António José Seguro, produto político pré-fabricado tal como Passos Coelho e muitos outros que Cavaco bem conhece. Cavaco sabia que Seguro correria desenfreado atrás da cenoura e, apesar disso não trazer nada de bom para os portugueses, muito pelo contrário, seria óptimo para aliviar o peso sobre ele próprio e sobre o seu protegido governo. É claro que Seguro correspondeu ao esperado, demonstrando uma vez mais porque razão está onde está.

Continuemos a examinar o seu discurso. Cavaco diz que apresentou aos partidos “a solução” para o problema em que o país se encontra. Disse mesmo que era “indubitavelmente” a solução que “melhor serve o interesse nacional”. Pelos vistos, os 3 partidos que “representam 90% dos deputados na AR” discordam do senhor presidente. Eu pergunto: como pode um Presidente da República, na posse de todas as faculdades mentais, congratular-se com a forma como os partidos se esforçaram para um consenso e um compromisso de salvação nacional? Qual consenso? Qual compromisso?

Mais incongruências de Cavaco? Vamos lá! Cavaco, que raramente tem dúvidas e que nunca se engana, sempre disse que com ele não haverá eleições antecipadas. Desde que o governo fosse maioritário? Não senhor! Este governo já o era e, ao que parece, não era condição suficiente para Cavaco Silva. No entanto, não resistiu em trazer o tema eleições para a fogueira, pela razão anteriormente exposta. Cavaco diz também que um governo de iniciativa presidencial NUNCA, mas... o que é e o que tem sido este governo, senão um governo de sua iniciativa? OK, eu aceito não lhe chamar “iniciativa presidencial” até porque eu não considero esta figura um verdadeiro Presidente da República, mas é indubitavelmente um governo de iniciativa e de continuidade cavaquista.

Cavaco disse também que o actual governo nunca deixou de se manter em funções... mas qual governo? O anterior ao pedido de demissão de Paulo Portas ou aquele que Passos Coelho lhe apresentou e que ele recusou? Pior ainda, até ao momento (e já se passaram muitos dias) nada disse sobre a proposta de remodelação de Passos Coelho. Que figurinha estranha esta!

Resumindo a palhaçada, Cavaco “voltou à casa partida”, mantendo o “tal” governo actual e refere que este lhe apresentou garantias adicionais. Quais? Terá Passos Coelho prometido que agora não haverão mais pedidos de demissão de ministros?

Mas o mais espectacular no meio de toda esta trapalhada e que ainda não ouvi ninguém referir é o seguinte: Cavaco, homem de convicções, diz que um acordo entre as 3 maiores forças políticas reforçaria a capacidade negocial de Portugal junto das instituições internacionais, atenuando os pesados sacrifícios exigidos aos portugueses. Disse também que isso asseguraria o êxito do programa de assistência financeira e o regresso aos mercados em condições mais favoráveis. CONTUDO, para Cavaco Silva, um governo com tamanha capacidade negocial e com colossal apoio parlamentar (cerca de 90%) só teria condições para se manter em funções até Julho do próximo ano, altura em que ele próprio daria início ao processo de eleições antecipadas. MAS, como o compromisso alargado não foi possível, Cavaco decide confirmar o seu apoio à “maioria menor” não apenas até Julho do próximo ano (altura em que supostamente terminará o programa de assistência), mas até ao final da legislatura.

 

O quê?!?!

 

Alguém faz o favor de me explicar este ponto, por favor? Um governo com o apoio de 90% do parlamento só tem condições para se manter até Julho de 2014, mas um governo com menor apoio deve durar até ao fim da legislatura?

Apenas mais duas notas finais sobre o malfadado discurso de ontem. A primeira em relação ao facto da necessidade deste governo aprovar o Orçamento de Estado (OE) para que este entre em vigor logo em Janeiro de 2014. Seria bom que alguém lembrasse Cavaco Silva que, o anterior OE padeceu de inconstitucionalidade e que ele próprio não pediu a fiscalização preventiva, atrasando a implementação do mesmo.

A segunda e última nota vai para mais uma afirmação muito curiosa, em que diz que “em democracia, existem sempre soluções para as crises políticas”. O problema é que Portugal não vive em Democracia desde 2011, situação que este senhor contribuiu e muito para que isso tivesse acontecido, pois nessa altura não estava interessado em consensos e compromissos de salvação nacional.

Eu não conheço nada mais democrático do que a realização de eleições livres, especialmente quando o quadro político-governativo se revela incapaz e incompetente de prosseguir com o seu trabalho.