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Contrário

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Como os portugueses vêem a classe política

De um modo geral, os portugueses olham para a classe política como se fossem uma espécie de guardiões do templo. Os portugueses acreditam que os políticos são o garante da Democracia, da Liberdade, da Igualdade e Justiça Social. Eu acredito que esta crença surgiu no pré-25 de Abril de 74. O país havia sido submetido a um sistema ditatorial durante décadas e com o 25 de Abril nasceu a esperança, as pessoas acreditaram que com a implementação de um sistema democrático as coisas iriam mudar para muito melhor. Bem, há que reconhecer que houveram mudanças significativas, para melhor, contudo os sonhos que se alimentaram na altura, promovidos por uma classe política que ainda hoje se mantém no poder, caíram por terra.

Mas, voltando à visão das pessoas sobre os políticos, não é de estranhar que estas tenham depositado tanta confiança neles, afinal foram eles (ou alguns deles) que também lutaram e ajudaram a derrotar o sistema ditatorial. E é também aceitável que tenham acreditado que essa classe política poderia conseguir fazer muito mais pelo país e, de facto podiam, mas não fizeram. A liberdade deu lugar à libertinidade política, sendo que logo se apressaram a constituir as várias famílias políticas, designadas por partidos, sob o mote da liberdade de pensamento, de expressão e, sobretudo, o direito e respeito pela diferença. Na verdade, era o início da formação dos lobbies do poder que se foram ramificando até aos dias de hoje.

Desde então, a maioria dos portugueses olha para os partidos como se de clubes de futebol se tratassem, apoiando fervorosamente a sua cor e repudiando os adversários, mesmo quando sabem que estão errados. Porém, alguns mudam de cor com frequência, como quem muda de camisola, patrocinando a alternância entre apenas dois partidos no poder. A verdade é que a diferença de cor dos partidos que têm vindo a ocupar as cadeiras do poder não representa grande diferença nas políticas, mas o povo vibra fervorosamente como se de um jogo se tratasse - o jogo das suas vidas, literalmente.

A maioria dos portugueses relaciona-se com os partidos de uma forma semelhante àqueles casais, em que o marido é a parte que exerce o poder, fazendo questão de deixar isso bem claro, recorrendo muitas vezes à violência física. Existem muitos homens que batem nas suas mulheres, que as subjugam, as inferiorizam, as amedrontam, mantendo-as num ambiente de constante terror físico e psicológico. E, mesmo assim, o que fazem a maioria das mulheres que se encontram nessa situação? Nada, apenas aguentam. Mesmo sabendo dos direitos que lhes assistem, mesmo sabendo que a mudança está nas suas mãos, continuam no seu triste calvário. Porquê? Simples, porque continuam a acreditar que aquelas pessoas que um dia lhes fizeram um monte de promessas bonitas, ainda têm algo de bom para lhes oferecer. Porque basta um pedido de desculpas e mais uma promessa falsa e tudo segue como dantes. E, também muitas vezes, porque têm medo que a mudança as coloque numa situação pior.

A relação da maioria dos portugueses com a classe política é igual. Trata-se de uma relação de dependência, de subjugação, de inferioridade e, portanto, de não liberdade.

A 29 de Setembro ocorrerão as próximas eleições autárquicas e, uma vez mais, a maioria dos portugueses actuará segundo esta dependência, este medo de mudar, esta falta de liberdade. Qualquer um pode arriscar-se já a vaticinar que os partidos PS e PSD serão os mais votados. E se houvesse eleições legislativas antecipadas, mesmo neste momento de grandes dificuldades, o resultado seria o habitual, ou seja, castigar o PSD que está no poder e dar a vez ao PS. O inverso aconteceu há dois anos. E andámos nisto há 40 anos, ora PS ora PSD, o inverso inverte-se e fica tudo na mesma.

Eu acredito que esta visão sobre a classe política está a dar os primeiros sinais de mudança, mas são sinais ainda muito acanhados. 

A culpa de tudo isto é dos partidos, dos maus políticos que neles militam e ascendem ao poder sem experiência relevante e sem mérito. E, por último, a culpa é também da sociedade civil que assiste de braços cruzados. Não sei o que é pior, se é fazer o mal ou assistir sem fazer nada.

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