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Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

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A abstenção não é tão grave quanto votar nos mesmos de sempre

Após o apuramento dos resultados eleitorais das Europeias, praticamente todos os políticos e comentadores de política caíram em cima daqueles que optaram por não exercer o seu direito de voto, como se a culpa de todos os males fosse deles.

Bem, quero desde já salientar que gostaria que todos os eleitores participassem em todos os actos eleitorais, porque só assim teríamos a certeza de que os escolhidos seriam mesmo os representantes de todos. Contudo, contrariamente aos que defendem o voto obrigatório, eu defendo que as pessoas devem manter o direito à abstenção. Os defensores do voto obrigatório alegam que a Liberdade e a Democracia foram coisas muito difíceis de conquistar, pelo que as pessoas não deveriam poder abster-se. Pois, precisamente por defender a Liberdade e a Democracia é que entendo que cada um deva poder fazer o que quiser com o seu direito de voto, até mesmo recusar-se a exercê-lo. Curioso o facto de ninguém se preocupar com o facto de os próprios deputados se absterem, com muita frequência, de votar os mais diversos diplomas nos respectivos Parlamentos.

Já agora, sobre o eventual voto obrigatório, convinha lembrar que essa seria uma excelente notícia para os populistas. O voto obrigatório é meio caminho andado para eleger um qualquer populista de extrema-direita.

Voltemos à abstenção. Os políticos manifestaram o seu descontentamento com o nível de abstenção, mas será que estão realmente preocupados com o facto de 69% dos eleitores terem optado por não votar? Ou será que apenas usaram esse argumento para desviar atenções? Note-se que os 21 eurodeputados a que Portugal tem direito foram eleitos na mesma e seriam sempre eleitos, qualquer que fosse o valor da abstenção. E, estou convicto de que mesmo que não houvesse abstenção, isto é, mesmo que todos os eleitores tivessem optado livremente por exercer o seu direito de voto, o resultado final das eleições não seria muito diferente do verificado.

Se repararmos, os resultados verificados não foram muito diferentes daqueles que foram avançados pelas sondagens, que incidem apenas na intenção de voto de algumas centenas de pessoas. Nestas eleições europeias votaram cerca de 3,3 milhões de eleitores, portanto, votos reais e não apenas intenções de voto, o que significa que, muito provavelmente, os que votaram representam as reais intenções da totalidade dos eleitores inscritos. Não quero dizer que as pessoas não devem votar, muito pelo contrário, apenas quero vincar que se a abstenção fosse menor ou não existisse, o mais provável seria que os resultados finais fossem exactamente os mesmos ou muito aproximados.

Se atentarmos bem naquilo que são os resultados eleitorais, quer seja nas Europeias, nas Legislativas ou nas Autárquicas, verifica-se que a taxa de abstenção varia muito, sendo que atinge valores muito mais altos nas Europeias, contudo, verifica-se que PS e PSD juntos têm sempre mais de 50% dos votos (às vezes, muito mais que 50%). Ou seja, quer a abstenção esteja nos 30% ou nos 70%, os resultados não diferem muito. Os eleitos são sempre os mesmos, aquela nata que bóia há décadas a fio, no topo dos principais partidos.

Na verdade, pouco importa se existem 17 listas a concurso numa eleição, tal como aconteceu agora nas Europeias. Pouco importa se há muita escolha. Primeiro, porque mesmo havendo muitas listas a concurso, isso não significa que pelo menos uma delas tenha que satisfazer o eleitor, como muitos defendem. E, como se sabe, o voto em branco não tem qualquer valor. Segundo, porque a existência de muitas listas apenas provoca a dispersão de votos. No final, o resultado não difere muito. A dúvida é saber quem vence (se o PS ou o PSD), mas na prática, a maioria tende a votar sempre nos mesmos. Como referi anteriormente, PS e PSD juntos têm sempre mais de 50% dos votos. E se a estes dois juntarmos os partidos “intermédios”, aqueles que elegem representantes (cá e na Europa), ou seja, se juntarmos o BE, a CDU, o CDS e o PAN, verificamos que estes 6 partidos conquistaram mais de 80% dos votos nas Europeias e mais de 90% dos votos nas últimas Legislativas.

Ou seja, com muito menos abstenção nas últimas Legislativas (em 2015), os mesmos partidos concentraram ainda maior percentagem de votos, o que significa que se nestas Europeias não houvesse tanta abstenção, o resultado não seria muito diferente daquele que se verificou, provavelmente até aumentaria a percentagem de votação nos do costume.

Podem dizer que, por exemplo, o PAN que é um partido relativamente recente tem conseguido crescer e até elegeu um deputado, o que demonstra que algo está a mudar. Sim, é verdade. Mas é uma mudança muito ténue, que não é significativa, principalmente por ser em eleições Europeias. Além disso, o facto de um partido pequeno e recente ter conseguido eleger um deputado, isso não impediu que “os mesmos de sempre” mantivessem ou até aumentassem a sua representatividade. O PSD manteve os 6 deputados que já tinha e o PS até aumentou de 8 para 9 deputados. 

Ou seja, pode haver dezenas de listas a concurso e a abstenção pode ser de 10%, 20%, 50% ou 70% que o resultado final é sempre o mesmo ou, na melhor das hipóteses, ligeiramente diferente. Isto da política é como no futebol, ou ganha o Benfica ou o Porto (e o Sporting de longe a longe).

Se olharmos para os últimos 20 anos, em eleições Legislativas, que são as que mais interessam às pessoas, os actos eleitorais que apresentaram menor taxa de abstenção são aqueles que apresentam maior concentração de votos nos partidos do poder (PS, PSD e CDS). Verifica-se que há uma tendência para diminuir a votação nos partidos do poder, com o aumento da abstenção. É um facto. 

Uma vez mais, gostaria de salientar que é importante votar e que todos deveriam exercer o seu direito de voto, mas tão importante quanto isso seria alterar o sentido de voto. Há quem diga que “quem se abstém não pode reclamar”. Está certo. Mas, então, o que dizer daqueles que votam sempre no PS ou no PSD? Se são sempre estes dois os partidos do poder e se as coisas nunca estão como deveriam estar, por que razão a maioria vota sempre neles? Apenas para ter o direito a reclamar? Eu também posso dizer que só tem direito a reclamar quem nunca votou nos partidos do poder.

Na verdade, irrita-me tanto aquela franja de eleitores que ora vota PS, ora PSD, quanto aqueles que decidem não votar. Porque, em boa verdade, a maioria daqueles que se abstêm, votariam no PS ou PSD. Vai dar no mesmo.

Não me parece lógico pensar-se que se não houvesse abstenção o resultado da votação seria diferente, quando infelizmente, um já longo passado de 45 anos de Democracia nos mostra que não.

A abstenção não é tão grave quanto o voto dicotómico (PS ou PSD).

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