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Contrário

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A bola de cristal de António Costa e outros reflexos

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António Costa tem uma bola de cristal, o problema é que a mesma não ajuda a prever acontecimentos futuros, apenas reflecte as qualidades de quem para ela olha: vaidade, impreparação, imprudência, insensatez, etc.

Até há bem pouco tempo, o governo de António Costa e as autoridades da saúde que dele dependem não davam muita importância à taxa de vacinação, na avaliação dos riscos da pandemia, apenas se socorriam da famigerada “matriz de risco”, que considerava apenas a incidência e a transmissibilidade. Agora, a incidência, a transmissibilidade, o número de doentes internados e o número de mortes já não interessa. Não. Agora, a única coisa que importa é a taxa de vacinação. E apenas isso.

Considerar que uma elevada taxa de vacinação – com uma clara e cientificamente comprovada diminuição da eficácia das vacinas - é razão suficiente (e única) para dar a pandemia como controlada significa não ter aprendido nada ao longo de todo este tempo.

A directora-geral da saúde, Graças Freitas, até já veio dizer que os boletins diários com a actualização dos números da pandemia vão deixar de ser emitidos. Diz que dá muito trabalho. Agora, o único dado que interessa é martelar que estamos quase com 85% da população completamente vacinada.

O coordenador da task force, Gouveia e Melo, como é seu hábito, também proferiu uma série de disparates que só visto (ou lido, aqui), dos quais se salienta a seguinte tontice: “Portugal já venceu este vírus”.

Para coroar a profunda alienação mental que acometeu toda esta gente, o Primeiro-ministro insiste na ideia de que estamos no “ponto de viragem", que “a pandemia está controlada”, que “o próximo ano (escolar) vai decorrer sem qualquer sobressalto”, que “o país está a um pequeno passo de vencer a pandemia”.

E ainda, claro, Marcelo Rebelo de Sousa, com palavreado de pós-pandemia, chegando mesmo a afirmar que, agora, "parece outro mundo".

Este tipo de afirmações e de decisões são ainda mais perigosas do que aquelas que são protagonizadas pelos negacionistas. Muito pior que termos meia dúzia de idiotas a dizer que a pandemia não é real e que o vírus não existe é termos as autoridades – não menos idiotas - a comportarem-se de forma tão irresponsável, usando a meta dos 85% vacinados como o assinalável momento de vitória sobre o vírus. Bem, pior que aturar os negacionistas da pandemia – que a mim só me fazem rir – é constatar que o país é governado por fundamentalistas de uma vacina que já provou não ter a eficácia suficiente para terminar com a pandemia.

Estamos no arranque de um novo ano lectivo que, como sabemos, coincide com a chegada das estações mais frias e húmidas que, como também sabemos, são propícias ao incremento da acção dos vírus respiratórios. E esta gente fala em vitória sobre o vírus, controlo da pandemia e regresso à normalidade.

No ano passado, por esta altura, com uma taxa de vacinação nula, os números da pandemia – aqueles que Graça Freitas vai escamotear em breve – eram bem mais simpáticos do que aqueles que agora se enfrenta, com uma taxa de vacinação acima de 80%.

Eu não tenho uma bola de cristal, mas parece-me que seria muito mais avisado manter um discurso cauteloso e não abandonar determinadas medidas de prevenção, pelo menos até ao final do Inverno. Aí sim, já se poderá ter uma boa base de comparação, para perceber os reais efeitos da vacinação. Nessa altura é que se vai poder dizer se o processo de vacinação foi uma vitória sobre o vírus e se a pandemia está ou não está controlada. Dizê-lo agora é simplesmente patético. E com consequências.