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Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

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A desgraça une, mas também expõe

A tragédia em Moçambique é um daqueles problemas que não deixa ninguém indiferente. O país, mais concretamente a região da Beira, atravessa uma enorme catástrofe humanitária causada pela passagem do ciclone Idai.

 

Não há dúvida de que aquelas pessoas necessitam de ajuda urgentemente, e já tomámos conhecimento que vários países, entre os quais Portugal, já enviaram ajuda para Moçambique e disponibilizaram-se para enviar mais (no caso de Portugal), se mais for necessário. Tudo certo até aqui. Considero que a ajuda internacional é um dever maior, que advém da solidariedade entre os povos e que deve chegar rapidamente a quem precisa.

 

Considero também que a ajuda já providenciada pelo Estado Português e a que se seguirá é representativa de todos os portugueses, afinal, nós é que somos o Estado. E, na minha modesta opinião, deve ser o Estado a assumir esse papel e a administrar a ajuda.

 

Contudo, como é costume, já se multiplicaram as iniciativas de solidariedade para com as populações afectadas, em forma de recolha de donativos. Por cá, praticamente todas as instituições estão envolvidas, desde os meios de comunicação social, aos bombeiros, bancos, cadeias de supermercados, artistas, Juntas de Freguesia, Câmaras Municipais, etc.

 

Bom, eu não tenho nada contra a recolha de donativos, mas quando vejo isso a acontecer de forma desenfreada, sem o mínimo de coordenação entre as mais diversas entidades fico de pé atrás. Veja-se, por exemplo, o que aconteceu a muitos dos donativos recolhidos por entidades privadas, aquando da desgraça de Pedrógão Grande.

 

Mas aquilo que mais me incomoda nem é esta desorganização na recolha de donativos, porque apesar de despoletar alguma desconfiança é também revelador de que o povo português, normalmente, une-se nos momentos mais difíceis, quer seja naqueles que nos afectam directamente ou naqueles que afectam outros povos. O povo português pode ter muitos defeitos, mas justiça lhe seja feita, sabe unir-se na desgraça e ser solidário. Aquilo que mais me chocou foi ver duas intervenções absolutamente inacreditáveis, provenientes de portugueses a residir em Moçambique, na região afectada pela intempérie.

 

Um deles falava para as câmaras de televisão, num tom autoritário, advertindo o Estado Português que é sua obrigação enviar ajuda imediata para todos os portugueses que vivem naquela região. Fê-lo dentro de um edifício cujas paredes e tecto não tinham caído. Estava relativamente bem vestido, nutrido e seguramente, não estava com os pés descalços a vaguear por entre lama, paus e pedras. Trata-se de alguém que decidiu, livremente, fazer a sua vida noutro país. Não tem direito a exigir o que quer que seja ao Estado Português, só tem que agradecer a ajuda providenciada.

 

O outro, um empresário que se dedica à criação de crocodilos. Bem, podia começar já por questionar o escopo do seu negócio, mas vou ignorar essa questão e tratá-lo como se fosse um qualquer outro empresário. O referido “criador de crocodilos” lamuriava-se num tom queixoso e quase tão exigente como o primeiro, sugerindo que o Estado Português tem o dever de o ajudar.

 

Quer-me parecer que estes portugueses ainda consideram que Moçambique é uma colónia portuguesa e, por essa razão, acham que podem fazer exigências à metrópole. Realmente, a desgraça une, mas também expõe comportamentos inacreditáveis.

 

Enquanto uns lutam pela sobrevivência, pelo acesso ao básico, outros choram pela perda dos negócios.

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