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Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

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RAPIDINHA

A propaganda intensifica-se. As taxas de juro só baixam - e praticamente nada - porque estamos em cima das eleições europeias. Apenas isso.

As fraquezas do Eixo do Mal

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No programa Eixo do Mal do passado dia 1 de Dezembro, no canal SIC Notícias, os comentadores de serviço Clara Ferreira Alves, Luís Pedro Nunes e Daniel Oliveira abordaram o tema dos confinamentos na China. Pedro Marques Lopes não esteve presente nesse programa, algo que não se notou, pois como já devem ter reparado, o nível de conluio que os quatro comentadores evidenciam nas suas opiniões, o nível de autocensura e de intolerância pela diferença de ideias e de opiniões é de tal forma flagrante que o programa devia até mudar de nome, para algo do tipo: “Todos nos Eixos” do mal, eventualmente.

Os três comentadores presentes criticaram ferozmente as políticas de combate à pandemia levadas a cabo pelo governo chinês, pouco importados com a opressão do povo chinês e muito empenhados em passar uma esponja sobre as medidas antidemocráticas, inconstitucionais e fascistas até, que se tomaram no lado de cá do mundo, incluindo Portugal, com as quais todos eles concordaram e aplaudiram de pé. Apesar de muita gente ter protestado - cá tal como lá - contra as medidas implementadas durante a pandemia, os comentadores do Eixo do Mal fizeram parte do grupo que não admitiu protestos em “democracia”, que não tolerou a diferença de opinião e não se inibiu em protagonizar tristes figuras, quando tentaram ridicularizar aqueles que por cá decidiram fazer uso do seu direito de protestar. Como é que se atreveram a protestar em “democracia”? Coisa de biltres insubordinados, não é verdade?

Clara Ferreira Alves falou do fracasso das políticas COVID implementadas pelo governo chinês, tratando logo de estabelecer imediatos paralelismos à “repressão” e “tremenda corrupção”, tanto na China como na Rússia. Claro que a Rússia tinha que ser trazida para a fogueira. E acrescentou que “no ocidente estamos ocupadíssimos a tentar defender as democracias”. Não haja dúvidas de que no ocidente não há lugar para repressões nem corrupções. Clara Ferreira Alves deveria enveredar por uma carreira humorística.

Já o Daniel Oliveira optou por dizer que “nunca que no ocidente as medidas que são impostas na China alguma vez foram… há sempre uma irracionalidade, a irracionalidade dos regimes totalitários, é da sua natureza porque não têm nada para os moderar”. Para o Daniel Oliveira, as medidas absurdas que se tomaram no ocidente e as mentiras que se difundiram de manhã à noite (e continua) não tiveram nada de irracional.

A verdade é que os protestos em “democracia”, portanto, os protestos realizados no lado de cá, praticamente não surtiram efeitos, porque as pessoas que protestaram foram marginalizadas, excluídas de qualquer debate e viram as suas reivindicações completamente ignoradas pelo poder. Por cá foram impostas as ideias – erradas – daqueles que estão no poder e de todos quantos os controlam. Será assim tão diferente da China? Aquilo que vimos na China é que os protestos levaram a mudanças muito significativas nas políticas COVID implementadas pelo governo chinês. Vejamos, depois dos protestos, parece que o governo chinês – contrariado ou não – ouviu o povo e decidiu abordar a situação de outra maneira. As medidas restritivas mais severas foram abandonadas, acabaram os campos de quarentena, as pessoas passaram a poder fazer a quarentena em casa, acabaram as separações familiares, já não é necessário apresentar um teste negativo para entrar em recintos de espectáculos, menos restrições nas viagens e deslocações nacionais e, para breve, a queda das restrições para o tráfego internacional. Nada mal para protestos que duraram poucos dias, num país que é uma terrível ditadura.

Mas muito pior do que a desfaçatez e a hipocrisia evidenciadas nos comentadores deste programa é o discurso da propaganda e da mentira, que eles têm abraçado com muito carinho nos últimos tempos.

Ora, atentemos nas seguintes afirmações de Clara Ferreira Alves: “A vacina da China é manifestamente inferior às vacinas ocidentais”. E acrescentou, com aquela bazófia típica de todos quantos consideram que viajar os torna mais sábios que os demais: “Eu estive no Vietname e toda a gente me dizia: ‘nós apanhamos a vacina chinesa, a vacina chinesa não presta, morreu muita gente porque devíamos ter apanhado a vacina ocidental – a vossa vacina’”. Muito científica esta abordagem da Clara Ferreira Alves.

Dizer que “a vacina da China é manifestamente inferior às vacinas ocidentais” é uma tremenda mentira. Proferir afirmações deste nível, num programa que passa num canal de notícias, sem sequer se dar ao trabalho de demonstrar minimamente que isso corresponde à verdade é algo que não deveria acontecer “em democracia”. E como bem sabemos, ninguém naquele espaço de comentário vai sequer ousar contradizer ou questionar a autenticidade da afirmação. Eles estão lá para declamar a cartilha.

Tratou-se, pois, de mais uma tremenda mentira que foi dita em horário nobre, sem qualquer contraditório. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a vacina Sinopharm é segura e eficaz para todas as pessoas com idade superior a 18 anos, mesmo em mulheres grávidas. O nível de eficácia contra infecção sintomática e hospitalização apontada pela OMS é de 79% e a vacina é recomendada pelo SAGE (Strategic Advisory Group of Experts).

Já agora, aproveitemos para lembrar que, ao contrário das “nossas vacinas”, como lhes chama a senhora Clara Ferreira Alves (aquela velha e pacóvia ideia de que aquilo que vem dos EUA é “nosso”), a vacina Sinopharm usa a mesma tecnologia das anteriores e antigas vacinas, portanto, uma tecnologia com mais de 100 anos de experiência. Já sobre “as nossas”, as que recorrem à tecnologia mRNA não se pode dizer a mesma coisa. A vacina Sinopharm utiliza o vírus inactivado, algo que, à partida, confere muito maior garantia no nível de resposta que o sistema imunitário dará ao vírus. Ou seja, uma muito mais abrangente resposta policlonal.

Se os senhores comentadores do programa Eixo do Mal não estão na posse destas informações, que pelo menos tenham a honestidade de não se pronunciar sobre aquilo que desconhecem. Mas a forma como eles afirmam com tanta veemência o contrário daquilo que são as evidências científicas, demonstra claramente que estão lá para servir os interesses de alguém, que não é o dos cidadãos que os ouvem e acreditam nas patranhas que proferem. E são muitos os que acreditam piamente naquilo que eles dizem. Esse é o grande problema.

Como referi, a OMS garante que todas as vacinas aprovadas apresentam um elevado nível de eficácia contra doença grave e hospitalização. E se há vacina que, à partida, dá maiores garantias disso é a vacina chinesa, pelas razões que descrevi anteriormente. Portanto, em que evidência científica se basearam os senhores comentadores do programa Eixo do Mal para contrariar a OMS?

Relativamente à eficácia das vacinas mRNA, a Pfizer começou por indicar que a sua vacina tinha uma eficácia de 95% na redução do risco em termos “relativos”, já a Moderna garantiu que a sua apresentava uma eficácia de 94%. Não obstante, a redução do risco em termos “absolutos” apresentada durante o período de testes fixou-se nuns módicos 0,84%. Já a redução do risco em termos absolutos na vacina Moderna foi de 1,24%. A “redução do risco em termos absolutos” tem a ver com o risco que uma pessoa tem de desenvolver a doença durante um determinado período de tempo. Ora, após cerca de seis meses, a vacina da Pfizer apresentou um nível de eficácia de 3,7% e a da Moderna de 4,9%. Quanto à redução do risco em termos absolutos da vacina chinesa, não existem dados, contudo, os próximos tempos vão demonstrar o seu nível de eficácia, já que com o levantamento de muitas das restrições, haverá com toda a certeza um aumento exponencial do número de casos e, não será de estranhar que daqui a poucos meses possamos afirmar com toda a certeza de que a redução do risco verificada na vacina chinesa será, muito provavelmente, superior à verificada nas vacinas administradas nos países ocidentais.

Nessa altura, veremos se estes senhores terão a dignidade de assumir as patetices que andam a propagar, ou se vão fazer como têm feito, isto é, fazer de conta que não andaram a propagandear e a desinformar os telespectadores. E a tentar reescrever a história, como se fossemos todos, um bando de desmemoriados.

Reparemos ainda num pequeno excerto do diálogo que os três comentadores presentes no programa tiveram, como se estivessem numa dinâmica de vendas em grupo.

Daniel Oliveira: “espero que [os chineses] recuperem um bocadinho da liberdade que perderam”.

Clara Ferreira Alves: “pelo menos que não sejam internados à força”.

Luís Pedro Nunes: “a vacina chinesa é de facto muito má”.

Daniel Oliveira: “eles só não importaram (as mNRA – as boas) por ‘orgulho nacionalista’”.

Clara Ferreira Alves: “claro… e precisam dela…”.

Ninguém diria que algum dia veríamos o Daniel Oliveira – que costuma ficar com a barba azul, quando o tema é a liberdade e a democracia e que costuma eriçar-se todo contra os “precedentes” – usar a suspensão de direitos e perda de liberdade num país, que invariavelmente só é usado para servir de bode expiatório e para apagar os holofotes que expõem a sórdida violação dos direitos e liberdades nas democracias ocidentais. E ainda embarcou na palermice de que as vacinas chinesas são piores do que as norte-americanas. O Daniel Oliveira tornou-se num soldado disciplinado da “Esquerda” que destrói a Esquerda.

Clara Ferreira Alves diz esperar que “pelo menos [os chineses] não sejam internados à força”. Uma cómica esta senhora. Já no ocidente, o que assistimos foi ao despedimento “à força” de muitos profissionais de saúde que estavam a tratar daqueles que “forçosamente” necessitaram de internamento. Hilariante. E, no entanto, sobre isso, os comentadores de serviço nunca disseram uma única palavra.

Luís Pedro Nunes ainda se mostrou muito preocupado e irritado com o facto de aqueles que criticaram as políticas implementadas por cá, no ocidente, (confinamentos, vacinação e outras obrigatoriedades) estarem, agora, a dizer que aqueles que defenderam essas políticas não podem falar do que se passa na China. Pois fazem-no com toda a razão, porque aquilo que estamos a ver agora é a tentativa de negar aquilo que foi dito e feito, e a tentativa de reescrever a história. Luís Pedro Nunes considera que essa “é uma perspectiva errada porque o sistema chinês controla em absoluto…”. Parece que o senhor Luís Pedro Nunes está disponível apenas para aceitar um controlo que não seja absoluto. Se for um controlo moderadamente autoritário, ele já concorda de bom grado. Patético.

Só este pequeno diálogo é suficientemente ilustrativo das falsidades que se ouvem neste programa. Claro que muitos poderão alegar que ninguém é obrigado a assistir a um programa que, na sua opinião, difunde mentiras. Mas a questão vai muito para além desse ponto. Além disso, não sou eu que costumo defender a visão única, a ausência de contraditório e a orquestração de narrativas. Isso é tarefa para o Eixo do Mal e para outros programas de comentário e de informação que têm-no feito com muita maestria. Eu até considero que o programa Eixo do Mal deveria fazer parte de um plano de formação obrigatório, a que os delegados de propaganda médica da Pfizer e da Moderna deveriam participar. Não haja dúvidas que os formadores do Eixo do Mal são uns especialistas a vender a banha da cobra.

Por último, como eu não gosto de atirar afirmações para o ar, sem sustentar aquilo que estou a dizer. Aqui ficam os links que suportam as minhas afirmações sobre a eficácia das vacinas:

https://www.who.int/news-room/feature-stories/detail/the-sinopharm-covid-19-vaccine-what-you-need-to-know

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC9115787/

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2034577

https://patient.info/news-and-features/calculating-absolute-risk-and-relative-risk

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