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Contrário

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As vacinas e a União Europeia de sempre

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A União Europeia é um projecto de pendor essencialmente económico e político, em que os Estados-membros (ditos independentes) estão, cada vez mais, dependentes das políticas desenvolvidas na grande central de negócios sediada em Bruxelas.

A União Europeia sempre foi e, infelizmente, continua a ser um grupo de Estados subordinados ao poder capitalista. Apesar de constituir um enorme mercado - também ele a funcionar sob as leis puramente capitalistas - a UE é assustadoramente dependente desse bastião imperialista que se chama Estados Unidos da América (EUA).

Podíamos, mas não necessitamos de recuar mais do que até ao ano de 2008 para atentar na forma como a UE lidou com as consequências da crise financeira, tendo negligenciado a soberania dos seus Estados-membros, submetendo alguns deles (Portugal incluído) às sórdidas regras capitalistas criadas pelos EUA. Como é possível que uma organização tão vasta e tão importante se submeta às regras mercantilistas impostas por um Estado externo à União e pelas suas agências de notação financeira? É o equivalente a ir disputar um jogo de futebol, em que as regras são ditadas pelo adversário e o árbitro do jogo é um insaciável accionista da sociedade que controla o clube que vamos defrontar.

Agora, temos a trapalhada da negociata da compra de vacinas. Uma vez mais, a UE está a ser a velha UE (antiga CEE), sempre dependente e subordinada às leis de quem manda no mercado. É repugnante a forma como as entidades europeias não têm qualquer poder perante os gigantes da indústria farmacêutica. A UE realizou vários contractos com alguns dos gigantes farmacêuticos que desenvolveram vacinas contra a Covid-19, pagou adiantado (pelo menos uma considerável parte), sendo que já havia financiado com muitos milhões o desenvolvimento das mesmas, agora, esses laboratórios recusam-se a cumprir os prazos acordados e as instituições europeias - em especial a Comissão - não conseguem fazer valer a sua posição de grande comprador.

E porquê? Porque ninguém respeita a UE. Há muito tempo que a UE é vista como um mercado muito apetecível, porque compra muito e paga ainda melhor, mas que nunca consegue deixar de envergar a sua farda de cumpridor subordinado, sem qualquer direito a exigências. Há poucos dias até ouvimos um deputado europeu que, por acaso até é português, a instigar a senhora Presidente da Comissão Europeia a comprar já mais vacinas, mesmo que se tenha que pagar mais por isso. Realmente, como se já não estivéssemos numa posição deveras desconfortável, ainda há quem suplique por um pouco mais de sodomização. Parece que há quem aprecie.

No que respeita à escassez de vacinas, a UE deveria ter negociado a possibilidade de, num cenário como o actual, poder tornar as patentes públicas, por forma a poder assumir a produção das vacinas nos laboratórios europeus. A Comissão não foi capaz de negociar em defesa do interesse dos cidadãos europeus.

Pior que isso, os contractos firmados entre a Comissão Europeia e as farmacêuticas nem sequer foram tornados públicos, porque outra das grandes características da CE é a falta de transparência. E, depois de muita insistência por parte do Parlamento Europeu, a senhora dona Ursula lá disponibilizou o contrato com a AstraZeneca, mas tendo omitido as principais cláusulas, porque isso tem que ficar no segredo dos deuses. Deve ter sido uma exigência da big pharma, a que a Comissão Europeia assentiu com especial servilismo.

O chefe do Governo Português – António Costa – e actual Presidente do Conselho Europeu, no que a esta matéria diz respeito, não perdeu tempo em fazer aquilo em que é especialista, isto é, vir a público muito lampeiro para dizer que o plano de vacinação em Portugal está a correr muito bem, sendo que a escassez de vacinas não é da responsabilidade do governo que lidera. Bem, ou António Costa assume que a posição do Governo Português na UE é a de apenas fazer figura de corpo presente, ou então, não pode sacudir a água do capote porque, que se saiba, Portugal ainda é membro da União Europeia.

A verdade é que a posição do Governo Português no seio da União Europeia é a mesma que os líderes da União Europeia têm no panorama internacional, nomeadamente nas relações com os EUA e com os gigantes que controlam os mercados, ou seja, sempre de calças arriadas.

E depois de tanta incompetência, tanta falta de liderança, tanta subordinação, ainda temos que ouvir Ursula von der Leyen dizer que “não entende a razão pela qual Putin quer vender a vacina Sptunik V à União Europeia, quando ainda não vacinou toda a população russa”, isto, no mesmo momento em que anunciou a compra de mais 300 milhões de vacinas à farmacêutica norte-americana Moderna. Ora, juntando esses 300 milhões aos muitos milhões que também comprou à norte-americana Pfizer e outros tantos milhões que se prepara para comprar à também norte-americana Johnson & Johnson, devemos então assumir que nos EUA a população já está toda vacinada, isto seguindo a linha de raciocínio que a senhora dona Ursula produziu face à posição de Putin. Deve ser da laca.

Esta pandemia tem-nos mostrado o quão frágil e perversa é esta sociedade capitalista, onde aqueles que já possuíam meios mais do que suficientes para produzir as vacinas e disponibilizá-las à população a baixo custo, ou até mesmo gratuitamente, foram aqueles que só se disponibilizaram a produzi-las mediante avultadíssimos financiamentos públicos. Portanto, os Estados (as pessoas, todos nós) pagaram a investigação e desenvolvimento das vacinas e agora, para as obter, ainda têm que as pagar a um elevado custo e com prazos de entrega para lá do aceitável, porque há milhares de pessoas a morrer todos os dias. Sendo que toda esta atrocidade relacionada com a escassez de vacinas poderia ser rapidamente colmatada com a produção em massa nos imensos laboratórios mundiais, bastando para isso que os laboratórios que detêm as patentes o permitissem, ou que os Estados que os financiaram assim o tivessem exigido.

O problema é que isso impedira que alguns multimilionários valorizassem desmesuradamente as acções das suas empresas nos mercados viciados, algo que aconteceu mesmo antes de as vacinas estarem prontas e disponibilizadas à população. Para quem ainda tinha dúvida, esta pandemia veio clarificar que estamos a testemunhar o princípio do fim do sistema capitalista, pelo menos, tal como o conhecemos.