Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

RAPIDINHA

VIVA A DEMOCRACIA!

Comportamento de manada

manada.jpg

Nunca se viu tanta gente tão satisfeita por concordar com a mesma coisa. O mundo ocidental parece uma enorme seita religiosa, em que a corrente dominante é a doutrina imposta pelos líderes da seita e não qualquer outro sistema de valores, como o outrora muito bem-afamado – sistema democrático. O sectarismo é tão evidente e tão generalizado que aqueles que controlam o enorme rebanho não têm nenhuma dificuldade em determinar aquela que deve ser a visão comum, a verdade plena. E depois, o rebanho de crentes segue apostolicamente os ditames do poder, acreditando piamente que estão a “combater o bom combate”.

O mundo ocidental tornou-se num lugar onde não há espaço para a divergência de opinião e para o debate. Não há espaço para a racionalidade. E, mais grave ainda, deixou de haver espaço para o sentido crítico e para restaurar a memória – mesmo a mais recente. Neste novo mundo ocidental nem sequer há espaço para a ambiguidade. Nem espaço, nem tempo. Isso é coisa do passado, mas como o passado não existe – porque já não há memória – também a ambiguidade deixou de existir. Aconteça o que acontecer, o rebanho está sempre pronto para seguir os ditames. Se alguém se atrever a recusar o discurso e “pensamento” únicos passa logo a ser um teórico da conspiração, ou de extrema-direita, ou antivacinas, ou anticiência, ou um negacionista de qualquer coisa – sendo que “qualquer coisa” corresponde a tudo o que não caiba ou contradiga a doutrina da seita. Mais recentemente, foi criada uma nova classe de excluídos, que são os pretensos “Putinistas”.

É, de facto, muito impressionante e até assustador a forma como a maioria dos cidadãos absorve tão entusiasticamente a narrativa que lhes é fornecida pela mão invisível. Sabemos que a incerteza e a sensação de perigo gera pânico nas pessoas – e todos nós bem sabemos como os últimos tempos têm sido pródigos nessa matéria -, daí a necessidade que muitas delas sentem em tomar parte de um movimento que as faça sentir que estão do lado certo e que estão seguras. O problema é que esse comportamento - em manada – geralmente traz consequências trágicas, individual e colectivamente, porque está sustentado na ideia de que há uma ínfima quantidade de seres humanos com superpoderes, que estão a comandar o barco que nos vai levar ao paraíso.

Olhando para o conflito na Ucrânia, uma vez mais, a narrativa que vem de cima encaixa automaticamente na cabeça da maioria das pessoas, como se não houvesse passado, como se não houvesse memória, como se nada que tivesse acontecido nas últimas décadas pudesse ser enquadrado nas causas que levaram a este conflito. E basta que uma pessoa diga que aquilo que está a acontecer na Ucrânia é consequência das acções do ocidente, para ser automaticamente rotulada de “Putinista”, mesmo que condene a invasão russa. Uma coisa é estar solidário com o povo ucraniano, outra é estar completamente ludibriado por uma narrativa falaciosa e não dar conta disso.

Pode alguém estar contra a decisão de Putin em invadir a Ucrânia e, simultaneamente dar-lhe razão nas queixas que este foi apresentando ao longo de quase duas décadas? Claro que pode. Não só pode, como deve. Independentemente da posição política ou ideológica de cada um, a verdade deve ser sempre assumida. A pergunta pode ser feita de outra forma, ou seja, pode alguém dizer-se pela paz e ignorar as causas que estão na base das graves divergências que originaram o conflito? Como pode um verdadeiro pacifista querer mostrar que é contra a guerra e desejar a paz se não actua de acordo com essas premissas? Ninguém poderá encontrar uma solução para o conflito se não compreender e assumir as suas causas.