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Dinheiro dos pobres?

A propósito de uma eventual entrada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) no capital do banco Montepio, tem-se ouvido muito falar no “dinheiro dos pobres”. Uns dizem que isso seria meter o dinheiro dos pobres na compra de parte de um banco, outros dizem que significa retirar dinheiro aos pobres para dar aos bancos (aos ricos).

 

Ora, como estou farto desta treta, sou obrigado a escrever sobre o assunto. Primeiramente, importa salientar que a expressão “dinheiro dos pobres” nem sequer faz sentido, ilustres senhores, se os pobres tivessem dinheiro não seriam pobres. Depois, é preciso que fique claro que o dinheiro da Santa Casa não é nem nunca foi dos pobres. O dinheiro é da Santa Casa, que de pobre não tem nada.

 

Fala-se na possibilidade de a Santa Casa entrar no Montepio com 200 milhões de euros, dos pobres dizem eles. Portanto, a Santa Casa considera a possibilidade de “investir” 200 milhões de euros porque, como se sabe, a Santa Casa tem muitas mais centenas de milhões de euros disponíveis para investir, mas só há disponibilidade financeira porque… porque é dinheiro dos pobres, claro está. Imaginem só o que tantas centenas de milhões de euros poderiam fazer pela vida dos pobres. Mas os milhões só existem porque há pobres. Se os milhões fossem distribuídos pelos pobres, não haveria pobres, nem haveria milhões e a Santa Casa não seria tida nem achada neste imbróglio.

 

A Santa Casa tem a exclusividade de uma enorme e rendosa fatia do jogo em Portugal, só o Placard (a mais ou menos recente novidade) deu cerca de 6 milhões de euros de lucro por mês, isto apenas no primeiro trimestre da sua existência. No entanto, a SCML informa que o lucro anual da Casa não chega sequer a 5 milhões de euros. E porquê? Porque a Santa Casa tem muita despesa com os pobres. Sim, com os pobres de espírito que vivem montados em alguns partidos (os do costume) e que sugam magníficos salários, entre outras benesses, na Santa Casa – a Casa dos Pobres - segundo os especialistas. A Santa Casa tem cerca de 5 mil funcionários, sendo que mais de 2 mil auferem um salário superior a 2 mil euros mensais. Está certo. Toda a gente sabe que os pobres são muito exigentes e não aceitam qualquer pessoa a trabalhar na defesa dos seus superiores interesses, por isso, querem os melhores e os mais bem pagos ao seu serviço.

 

Conheço muitas pessoas que se podem considerar pobres e quase nenhuma delas recebe ou recebeu um chavo da Santa Casa. Na verdade, conheço mais pessoas que trabalham na Santa Casa do que pessoas (pobres) que recebem algum tipo de ajuda por parte da instituição. Conheci apenas uma pessoa que recebia um prato de comida e uma tijela de sopa por dia, e ainda tinha que gerir o majestoso manjar de modo a que fosse suficiente para o almoço e jantar, pois não dava para mais. Devo ainda acrescentar que para ter acesso a tamanha benesse, a Segurança Social tinha de entrar com “algum” na Santa Casa, senão talvez só desse mesmo para a sopa. O mesmo acontece, por exemplo, em determinados tratamentos médicos e/ou meios complementares de diagnóstico prestados pela Santa Casa, apenas porque a maioria daqueles que recorrem a esses serviços estão munidos de uma credencial para esse efeito, emitida pelo SNS, sendo o Estado a pagar a parte de leão.

 

Se a Santa Casa gastasse o dinheiro do jogo na ajuda aos pobres, talvez já não houvesse pobres ou, pelo menos, não seriam tão pobres. Essa coisa de dizer que o dinheiro da Santa Casa é dinheiro dos pobres é a maior asnice dos últimos tempos.

 

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