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Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

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É preciso explicar muito bem ao baralhado Marcelo

O Primeiro-ministro, António Costa, está em isolamento profiláctico devido ao facto de ter estado em contacto com uma pessoa que entretanto testou positivo à Covid-19. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, veio exigir que as autoridades da saúde expliquem muito bem aos portugueses – para que estes não fiquem baralhados – a razão pela qual António Costa foi sujeito a isolamento.

Marcelo considera que se a situação não for muito bem explicada pode levar a que os portugueses desvalorizem a importância da vacina.

Ora, parece-me que Marcelo é que anda a precisar que lhe expliquem algumas coisas. Para começo de conversa, se há problema que não existe em Portugal é a “desvalorização da vacinação”. Cerca de 95% da população portuguesa deseja tomar a vacina contra a Covid-19, pelo que a preocupação de Marcelo cai logo por terra. Marcelo acrescentou ainda o seu receio de que as pessoas entrem em “desconfinamento selvagem” que, segundo o próprio, não tem nada a ver com “desconfinamento organizado”. Uma vez mais, Marcelo baralha-se por completo, já que a improvável desvalorização das vacinas nada têm a ver com o desconfinamento selvagem de que ele falou, muito pelo contrário, é a excessiva confiança na vacinação e em estupidezes como o “Certificado Digital Covid” – aquilo a que Marcelo chama de “desconfinamento organizado” - que, de facto, conduz muitas pessoas ao desconfinamento selvagem.

O que é imperioso explicar a muita gente - e também a Marcelo – é que o facto de se estar vacinado não pode levar ao abandalhamento das medidas de protecção. Até se atingir a chamada “imunidade de grupo”, a vacinação só protege o próprio indivíduo (não totalmente, mas consideravelmente), mas não impede a circulação comunitária do vírus que, por sua vez, pode sofrer mutações e gerar novas estirpes que podem causar problemas à eficácia das vacinas, colocando em causa tudo aquilo que já foi alcançado até agora. Isto já deveria estar mais do que esclarecido na cabeça de toda a gente, principalmente na dos responsáveis políticos.

Marcelo fala da pandemia no pretérito perfeito do indicativo, como se ela não estivesse bem presente e a ganhar força outra vez. Marcelo continua a desvalorizar os números da pandemia que, segundo palavras do próprio, “são de menor gravidade porque não se traduz em mortos”. Diz ainda que os números actuais “não têm nada a ver com os números de há poucos meses, nós é que já não temos memória”. Ora, como bem se vê, o problema que se coloca não é a "desvalorização da vacinação", mas sim a "desvalorização da própria pandemia".

Marcelo, que não se considera tão optimista quanto António Costa, está constantemente a comparar os números do presente com os números trágicos do mês de Janeiro, para que eles possam parecer “de menor gravidade”. Contudo, Marcelo deveria comparar os números actuais com os números do período homólogo anterior. Só para que se tenha a verdadeira noção da gravidade da situação actual, a 30 de Junho de 2020 registaram-se 259 novos casos, já a 30 de Junho de 2021 (ontem) registaram-se 2362 novos casos. Quase 10 vezes mais. Até há bem pouco tempo, algumas pessoas justificavam os números do presente com o facto de se estar a testar mais. E é verdade que se realizam mais testes agora do que no Verão passado, mas não 10 vezes mais, nem mesmo três vezes mais.

Já o número de internamentos a 30/06/2020 foi de 491 casos, ontem o registo contava com 504 casos. Já em cuidados intensivos, a 30/06/2020 havia 73 pessoas, no dia de ontem havia 120 casos, mais 65%. Se a estes números acrescentarmos o importante dado de que no Verão passado ninguém estava vacinado e muito poucos haviam recuperado totalmente da doença e, ainda, de que há uma nova variante que apresenta o dobro do potencial de contágio daquela que circulava há um ano, então os números actuais são realmente graves.

Alguém que explique isto a Marcelo Rebelo de Sousa.