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Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

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Expliquem como se fôssemos muito Yupidos

Quase toda a gente já ouviu falar da “empresa” Yupido nos últimos dias. Mas o que se sabe até agora é deveras preocupante e levanta muitas outras questões. Para já sabe-se que a empresa foi constituída há cerca de dois anos, com um avultado capital social no valor de cerca de 243 milhões de euros. Sabe-se também que a empresa não tem funcionários, não tem vendas e, ainda assim, procedeu a um astronómico aumento de capital para 28,7 mil milhões de euros (cerca de 120 vezes mais do que o valor que constituiu a sociedade).

 

Consta que a empresa se dedica à prestação de serviços de consultoria para os negócios e gestão, tecnologia, design, marketing, contabilidade e auditoria, consultoria fiscal, serviços de informação, domiciliação de páginas e aplicações, programação, desenvolvimento de software, serviços administrativos, recrutamento e selecção de pessoal, formação, entre outras coisas, se for necessário também fazem barba e cortam cabelo e unhas, pelo meio ainda assam frangos e servem uns magníficos cafés.

 

Isto é, no mínimo, muito estranho. Portanto, uma empresa de ponta, que se propõe a fazer tudo, mas que em dois anos ainda não fez nada. E vale cerca de 29 mil milhões. Imaginem só quando começarem a trabalhar e a vender produtos e/ou serviços. Esta é a empresa que vai salvar o país.

 

Mas o que é realmente estranho é o facto de só agora, quase que por acaso, as autoridades terem decidido investigar o que está por detrás deste fenómeno. Veja-se, a empresa foi constituída em 2015, com um capital social de cerca de 243 milhões de euros, algo que por si só deveria ter chamado logo a atenção.

 

- A Conservatória do Registo Comercial não achou estranho o valor do capital social (inicial)? Não achou por bem comunicar à Autoridade Tributária e Aduaneira?

- Aquando do absurdo aumento de capital, a Conservatória do Registo Comercial voltou a considerar normal o procedimento?

 

Em ambas as situações, a AT não soube de nada? Achou normal uma empresa que se está a constituir ter este valor de capital social? Achou normal o aumento colossal do capital de uma empresa que, na prática, não tem actividade?

 

E o mais absurdo é que tudo isto foi publicado em Diário da República, que é só o jornal oficial da República Portuguesa. Acharam tudo normal? Nem sequer pensaram em averiguar (só por via das dúvidas)? Ou será que a República nem sequer dá conta daquilo que publica no seu jornal oficial?

 

Reparem, logo no momento inicial, ou seja, aquando da constituição da empresa, os proprietários (accionistas) tiveram que fazer prova do valor do capital social (243 milhões de euros). Tiveram que apresentar provas da existência de contas bancárias nesse valor. O Estado não achou estranho que, no momento da constituição da empresa, ou seja, na sua génese, tenha já um valor (em dinheiro) de 243 milhões de euros? O Estado não foi averiguar de onde apareceu esse dinheiro? Tão mau quanto tudo isto é pensar que o Estado nem sequer dá conta destas situações. Ou que não dispõe de mecanismos que desencadeiem uma pronta verificação dos factos.

 

Fica a sensação de que as instituições competentes fizeram tábua rasa sobre algo que levanta, logo à partida, inúmeras suspeitas.

 

Segundo consta, o aumento de capital foi feito por meio de entrada de bens que não são dinheiro, neste caso, parece que se deveu à incorporação de activos intangíveis. Os responsáveis da empresa informam que se trata de patentes, mas a verdade é que acabam por admitir que não existe, ainda, nenhuma patente registada. Portanto, não vejo como se possa atribuir valor a uma coisa que não existe.

 

Ora, este tipo de aumento de capital deve ser objecto de um relatório elaborado por um revisor oficial de contas (ROC). O relatório deve descrever os bens, identificar os seus titulares, e avaliar os bens (indicando os critérios utilizados para a avaliação). Na elaboração do relatório, o ROC deve também verificar se os bens objecto da entrada estão em condições de poderem ser utilizados na realização de capital e se são facilmente transaccionáveis para a sociedade.

 

O ROC, de seu nome, António Alves da Silva que, segundo consta, é a quinta-essência dos ROCs. Realmente, para uma operação desta grandeza, só o melhor dos ROCs para oficializar a coisa. Mas, que competência tem um ROC, seja ele que for, para proceder à avaliação de uma “startup tecnológica”? Que conhecimento pode ter um ROC em áreas como as tecnologias de informação, design, marketing, serviços de informação, domiciliação de páginas e aplicações, programação, desenvolvimento de software, serviços administrativos, recrutamento e selecção de pessoal? Que competência tem para aferir o valor de um activo intangível (assumamos que são as tais patentes)? Quais os critérios que utilizou na avaliação?

 

Falta apenas salientar que dois dos grandes cérebros desta “empresa” (o Torcato e o Besugo) foram formados na “escola de quadros do CDS”. Não sei como é que o CDS deixou escapar tamanha inteligência, mas suponho que deva ter sido por uma razão maior.

 

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