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Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

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Humanistas de proximidade

Imediatamente após os ataques terroristas em Paris, ocorridos no passado dia 13 de Novembro foram imensas as demonstrações de solidariedade. Pessoas de todo o mundo apressaram-se a manifestar o seu pesar e solidariedade para com os parisienses e França. A internet, principalmente através das redes sociais, permite que um determinado gesto se repita por milhões de pessoas em questão de poucos minutos. De repente, a bandeira francesa apareceu (sobreposta, com redução de opacidade) nas fotos de perfil dos internautas, muitos escreveram “A Marselhesa”, outros usaram expressões do tipo “Vive la France”, “Je suis Paris”, “Liberté, Égalité, Fraternité”, velinhas e flores, etc. E o que é que isto tem de errado? Nada. Nada disto é errado. Muito pelo contrário. A menos que seja um gesto de pura imitação.

 

Contudo, muitos outros foram os que criticaram este tipo de comportamento, alegando que quando ocorrem ataques deste tipo na Síria (todos os dias), no Iraque, no Líbano, na Nigéria, no Mali ou até mesmo na Turquia, ninguém quer embarcar nestas “carneiradas”. É um facto. Na verdade, ninguém tem um comportamento semelhante para com os nossos “semelhantes” do Médio Oriente ou África.

 

Eu tendo a concordar mais com este segundo grupo. Não é que os primeiros estejam completamente errados, mas, eu julgo que o sentimento que qualquer ser humano tem por vítimas deste tipo de barbárie deve ser “sentido” de igual forma, independentemente da sua localização geográfica. Aquilo que eu sinto pela perda da vida de um qualquer desconhecido, seja ele francês, inglês, chinês, libanês, turco ou qualquer outra nacionalidade é a mesma coisa, e não me sinto tentado a demonstrá-lo em função da nacionalidade. Por que razão, aqueles que sentem necessidade de demonstrar publicamente o seu pesar não o fazem para todas as vítimas de ataques terroristas? Por que razão não vemos bandeiras libanesas, turcas, nigerianas ou sírias? Será por desconhecimento? Ou será porque, na verdade, para a maioria das pessoas que exibiu a bandeira francesa, a vida de um francês é mais preciosa do que a de um sírio, libanês ou nigeriano? Não faz sentido. Até porque muitas das vítimas de um ataque terrorista em Paris, em Londres ou Nova Iorque podem ser de outra nacionalidade, que não a desse país. Então, porquê esta febre de solidariedade apenas para alguns? Será que todos os que tiveram esse comportamento (milhões) tinham familiares, amigos, ou até mesmo conhecidos entre as vítimas? Claro que não. Então, repito a pergunta, porquê demonstrar efusivamente um sentimento de pesar pela perda de vidas desconhecidas em Paris e não fazê-lo por tantos outros desconhecidos de outros pontos do planeta? Muitos responderão que “só porque lhes apetece”, “porque são livres de fazerem o que bem entenderem”, etc. Está bem.

 

Muitos dos portugueses que também embarcaram nesta onda de pesar internáutico em modo “Bleu, Blanc, Rouge”, apressaram-se logo a responder aos que questionaram o seu comportamento selectivo, com quatro pedras na mão, demonstrando que essas questões que não eram críticas tocaram-lhes o centro da ferida. Então, a única justificação que vi repetida vezes sem conta, um pouco por todo o lado, foi a de que “é normal uma pessoa sentir-se mais solidária com os franceses, por causa da proximidade”. Continua a não fazer sentido. O que demonstra que quem “tocou na ferida” teve razão em fazê-lo. Então agora os nossos sentimentos humanistas são despoletados pela proximidade geográfica? Quer dizer que eu devo sentir maior tristeza e devo demonstrar mais solidariedade para com uma vítima que eu desconheço totalmente, mas que mora a mil e quinhentos quilómetros de distância, do que para com um familiar ou amigo que habita a cinco mil quilómetros de distância? Todos responderemos que não, obviamente. Já agora, os EUA ficam mais longe que a Nigéria, o Líbano, a Argélia, a Tunísia, a Síria ou a Turquia… será que a proximidade aos EUA estabelece-se por via das películas made in Hollywood, pelos Big Macs ou Coca-Cola?

 

Para mim, o que está em causa nestas barbáries não é a nacionalidade, a religião, muito menos a proximidade geográfica das vítimas, mas sim os actos hediondos praticados por terroristas. E esses podem ocorrer em qualquer parte do planeta, com maior probabilidade de ocorrência nuns sítios que noutros, contudo, a violência e o terror são os mesmos, pelo que os meus sentimentos, enquanto ser humano, perante a perda de vidas de meus semelhantes serão sempre sentidos e demonstrados com a mesma intensidade, sem distinção.

 

Que raio de humanismo de proximidade é este?