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Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

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Inadvertidamente angelicais

O caso sobre as falsas presenças do secretário-geral e deputado do PSD, José Silvano, serviu para expor a angelical ingenuidade de uns certos profissionais da opinião da nossa praça.

 

Lamento, mas o caso não serviu para mais nada, porque já toda a gente conhece os níveis de moralidade e ética da grande maioria dos deputados da Assembleia da República. Todos sabemos que existem deputados que indicam a morada mais distante para receber mais dinheiro, quando habitam em Lisboa ou nos arredores, todos já ouvimos falar de deputados que optam pelo regime de exclusividade (para receberam mais) e que, simultaneamente, recebem avultadas verbas mensais por intermédio das conezias que mantêm com algumas empresas privadas (Passos Coelho foi um deles). Também todos sabemos que alguns deputados recebem subsídios a que na realidade não têm direito e, agora, soube-se que há deputados que recebem pela presença no Plenário da AR, quando nem sequer lá puseram os pés.

 

O mais estranho disto tudo, como referi, foi a postura de alguns profissionais da opinião pública. Alguns disseram que não estão a ver José Silvano ou outro deputado a borrar-se por cerca de 140 euros. Não estão? Pois eu vejo isso muito claro. Esta gente apanha todas as migalhas que puder, mesmo que por vias travessas. Migalhas do ponto de vista de quem ganha bem, porque para grande parte dos portugueses, 140 euros são quase 25% do seu salário. No caso do referido ilustre deputado, pode dizer-se que não é um grande valor, mas se ele deixar de receber estas presenças, aqui e ali, no final do mês pode fazer uma grande diferença. E como disse antes, há muitos deputados que estão na AR apenas para isso, para receber tudo o que puderem.

 

Eu ouvi da boca de um deputado, poucos dias após ter sido eleito, a seguinte afirmação: “Agora é que eu estou bem na vida”. Por aqui já se vê ao que vão. E estes angelicais profissionais da opinião, que agora defendem Silvano e Emília, são os mesmos que dizem que os deputados “ganham pouco”.

 

A mim, ninguém me convence que não foi o deputado José Silvano que telefonou à sua amiga e também deputada Emília Cerqueira, a pedir-lhe para entrar no seu computador, porque sabe de antemão que é assim que se marcam as presenças no Plenário. Estranha-se o facto da senhora deputada Emília Cerqueira não saber que é esse o procedimento de marcação de presenças, quando já todos sabemos que essa é a primeira lição que aprendem quando são eleitos, ou seja, como é que se recebe o carcanhol.

 

Emília Cerqueira não sabia. Também ela é uma inadvertida angélica que, se calhar, até tem sido prejudicada nos recebimentos das suas presenças na AR, já que tenho sérias dúvidas de que tenha alguma necessidade de ligar o seu computador, na maioria das sessões. Como não sabia que é assim que se assinala as presenças, o mais provável é que não tenha recebido muitas das suas presenças no Plenário.

 

Quanto à partilha de passwords, bem, depois de tanto falatório sobre a protecção de dados, é incrível como algumas pessoas têm a latosa de dizer que é algo normal, que é prática corrente no mundo do trabalho e da política, porque as pessoas têm necessidade de partilhar ficheiros. Sim, é verdade que as pessoas têm necessidade de partilhar ficheiros, mas não as passwords. Pessoas que trabalham nos mesmos assuntos, nos mesmos ficheiros, trabalham em rede (há quem o faça através da “cloud” ou de um directório comum) ou, em último caso, enviam os ficheiros de um terminal para o outro, pelas mais diversas formas possíveis. Agora, partilhar passwords para aceder a ficheiros nos próprios computadores? NÃO, não é normal, nem usual.

 

Também é muito curioso que a senhora deputada tenha tido a necessidade de aceder aos ficheiros do senhor deputado Silvano, nos mesmíssimos dias em que ele esteve ausente. Que chatice! “O Silvano falta sempre nos dias em que eu mais preciso de aceder aos ficheiros que estão no computador dele”, terá desabafado a senhora deputada Emília Cerqueira.

 

Só que, José Silvano disse que nunca partilhou a sua password, então, como poderia Emília Cerqueira aceder ao seu terminal? Talvez tenha sido um milagre de Santa Luzia, bendita.

 

Emília Cerqueira disse, ainda, que esteve o fim-de-semana fora, como se isso fosse desculpa para não saber da polémica em que o seu colega e amigo estava envolvido. E disse-o, pasme-se, na Sexta-feira seguinte. Por que razão necessitou de tanto tempo para explicar uma coisa tão básica? Naquela sublime conferência de imprensa, também disse que responderia a todas as perguntas que lhe quisessem fazer, mas ao fim de 3 incómodas perguntinhas, a senhora deputada, que já se afundava na cadeira, recusou-se a responder a mais questões.

 

Mas ainda há por aí alguns angelicais que comeram e saborearam o sarrabulho à minhota que a deputada Emília Cerqueira lhes serviu.

 

Bem-haja! Como eu gostava de ter essa ingenuidade e o mundo seria tão mais colorido. Mas lamento desapontá-los, podem crer que, no dia em que o sistema de marcação de presenças na AR for através de impressão digital, não vão faltar deputados a arrancar a pele dos dedos e a partilhá-la com os colegas, não vá algum colega ter uma superior necessidade de aceder a ficheiros que são do também superior interesse nacional.

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