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RAPIDINHA

Marques Lopes e arte de fazer vida através do “achismo”

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Pedro Marques Lopes é um colunista e comentador com assento seguro em diversas plataformas mediáticas. Marques Lopes poderá até fazer muitas outras coisas na sua vida, contudo, a sua fama, “qué dizer”, a sua notoriedade junto do público provém das opiniões que, aqui e ali, vai exprimindo com uma infatigável regularidade.

Há poucos dias, Marques Lopes escreveu um artigo na Visão, acerca da proposta que tinha em vista a realização de um referendo à Eutanásia, levada a cabo pelo PSD. Marques Lopes caiu com estrondo em cima do líder do PSD, Luís Montenegro, por considerar que “a democracia não é um achar”. Ninguém diria que um individuo que faz vida de “achismos” pudesse proferir tal afirmação.

Marques Lopes escreveu no seu artigo que “o presidente do PSD pensa que todos os portugueses têm o tempo e a disponibilidade para pensar em todas as implicações da eutanásia”. Realmente, como é que alguém se pode atrever a sequer supor que os portugueses estão disponíveis para pensar em temas sérios e aborrecidos como a Eutanásia? Então? Vá lá, deixem os portugueses em paz. Não os apoquentem com assuntos que são demasiado elaborados para a sua simplista capacidade de raciocínio. Pedir-lhes para fazer uma cruz no boletim de voto já representa uma tarefa demasiado extenuante para a maioria dos portugueses, não lhes peçam mais do que isso, até porque a Democracia é uma espécie de corrida por estafeta, em que o papel do cidadão é levar o “testemunho” até à cabine de voto e depois descansar. A partir daí, alguém tratará de manter o “sistema democrático”, a bem do cidadão, claro.

Marques Lopes entende que a Eutanásia é um assunto da exclusiva responsabilidade dos “especialistas”, defendendo que “o achismo não se deve sobrepor ao estudo e à reflexão”. O mesmo é dizer que muitos outros assuntos também não devem ocupar as cabecinhas inaptas dos cidadãos comuns e, acima de tudo, fazer-lhes crer que existe um conjunto de entidades supremas, muito especializadas nas mais diversas matérias, que vão pensar por eles e dizer-lhes como devem agir. Tudo para o seu próprio bem. É uma espécie de "Entretenham-se com o vosso medíocre achismo, porque nós estamos aqui para estudar, reflectir e decidir por vós". Temos visto muita gente a defender esta ideia de “Democracia” nos últimos tempos, não temos?

Marques Lopes vai mais longe e acusa o PSD de se “demitir da sua tarefa de representar em quem nele votou”, considerando que esses representantes – os deputados – estão muito bem preparados para decidir sobre este assunto, ou outros assuntos que sejam demasiado complicados para as pessoas comuns, porque eles (os deputados) “consultam os especialistas sobre os temas” e se “debruçam sobre os temas que interessam à sociedade”. Pois, pois. Todos somos testemunhas de como isso tem funcionado às mil maravilhas, nos mais diversos assuntos. Tal como aqueles “especialistas” que diziam que “usar máscara causava uma falsa sensação de segurança” e que depois tornaram o seu uso obrigatório, entre muitas outras insanidades.

Marques Lopes entende que “é exactamente por o assunto ser muito sensível e muito complicado que deve ser entregue a quem tem por missão, dada pelos portugueses, pensar nesses assuntos”. Uma vez mais, Marques Lopes está convencido de que há assuntos que não são para ser abordados pelo comum mortal. Há assuntos que não são merecedores de discussão pública e de debate, porque isso seria contrário à Democracia. Notemos que esta ideia defendida por Marques Lopes, a de que os portugueses depositam nos seus representantes total confiança, para que estes decidam por si em todos os assuntos, sobretudo nos mais “sensíveis” e “complicados” é uma ideia extravasante, perigosa e pateta, “qué dizer”… Para o senhor Pedro Marques Lopes a Democracia esgota-se no momento do voto. A partir daí é tudo com os “representantes”. Além disso, são muitos os temas que não são abordados pelos partidos políticos, quer nos seus programas, quer nas suas campanhas eleitorais. Mas Marques Lopes entende que o voto é um cheque em branco emitido à ordem dos representantes eleitos, para que estes possam fazer com ele aquilo que muito bem entenderem.

Marques Lopes afirma que “um tema com a profunda relevância social como a Eutanásia” não deve ser “resolvido pelas pessoas, com um sim ou não”.

Vejamos, este é, de facto, o ponto fulcral quando se está a discutir a Eutanásia, ou seja, a possibilidade conferida legalmente a cada cidadão, individualmente, de este poder pôr em prática um direito que lhe é conferido pela lei. Cabe, portanto, ao cidadão - e só a ele – poder tomar essa decisão. A (Eu)tanásia é isso mesmo: uma acção que exerce um direito exclusivamente individual. E os direitos (ou as leis) que têm repercussões exclusivamente individuais, isto é, cujos efeitos da sua aplicabilidade incidem somente sobre o próprio indivíduo que exerce esse direito, não devem nunca ser objecto de referendo. Portanto, a Eutanásia não deve ser objecto de referendo apenas por esta razão e não pelas estapafúrdias inferências propagandeadas pelo senhor Marques Lopes na sua tortuosa discorrência, que só tem dois objectivos: primeiro, o de desferir mais um golpe neste PSD (que claramente não é o seu) e segundo, o de cristalizar a ideia de que o cidadão comum não tem condições para decidir o que é melhor ou pior para si próprio. E quanto mais sério for o assunto, menos envolvido deve estar o cidadão.

Nada disto constitui motivo de grande preocupação para a sociedade, já que na “Democracia” saudável preconizada pelo senhor Pedro Marques Lopes, os temas mais “sensíveis” e “complicados” terão sempre uma solução magnificentemente elaborada pelos predestinados que estão no poder e aos quais ele está muito grato.

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