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Nobel da Literatura: porque não Dylan?

Como é do conhecimento de todos, a Academia Sueca atribuiu o Prémio Nobel da Literatura deste ano a Robert Allen Zimmerman, mais conhecido por Bob Dylan (seu nome artístico).

 

Como sempre há quem mostre satisfação, indiferença ou desagrado com a atribuição deste tipo de distinções. Eu, apesar de não apreciar muito as distinções que a sociedade moderna tanto aprecia, sejam os Nóbeis, os Grammys, os Emmys, as Bolas de Ouro ou outras, não fiquei nada surpreendido com a atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan.

 

E este texto vai no sentido de perguntar aos que ficaram desapontados com a escolha da Academia este ano, porque não Bob Dylan? Ouço e leio por aí que o Nobel da Literatura deve ser atribuído a quem escreve livros, a quem possui obra literária e que canções não são obras literárias nem cabem no universo da literatura.

 

Isso é que me deixa estupefacto. Primeiro é necessário clarificar que Bob Dylan, para além de cantor e compositor de canções também é escritor. Para os que acham que só a escrita convertida no formato livro é que obedece aos verdadeiros critérios literários, tenho a informar que também Bob Dylan tem livros escritos, o primeiro vai para 50 anos. Reconheça-se, contudo, que a principal obra literária de Bob Dylan são as poderosas letras e os magníficos poemas que o próprio converteu em excelentes canções, porque para além de grande escritor, Dylan é também um músico sublime. Até compreendo a inveja de alguns por não conseguirem conjugar as duas artes, mas melhor faziam se engolissem em seco.

 

Afinal, quantas grandes canções se socorreram nas letras de grandes escritores e/ou poetas? Inúmeras. Só a título de exemplo, fora do universo Bob Dylan, temos (e em português) a canção dos Trovante “Ser Poeta (Perdidamente)”, um belíssimo poema de Florbela Espanca. Ou então o poema escrito por Carlos Drummond de Andrade com o título “Canção Amiga”, convertido em canção por Milton Nascimento. Os inúmeros e aclamados fados de Amália Rodrigues, quase sempre interpretando grandes poemas de autores nacionais. Já ao nível da escrita anglo-saxónica podemos tomar como exemplos, poemas de Salman Rushdie (escritor sobejamente laureado) convertidos em canções. Podemos também referir James Joyce. Alguns poemas de Pablo Neruda (Prémio Nobel em 1971) também foram convertidos em canções. E eu podia estar aqui a semana toda a enumerar outros casos. Está bem, só mais um: William Shakespeare. Foram muitos os que interpretaram os seus poemas no formato canção. Aliás, não é necessário ser-se muito entendido em literatura para perceber que os maiores escritores empregavam, não raras vezes, recursos linguísticos que conferiam musicalidade e ritmo às suas obras. As palavras, o ritmo e a musicalidade sempre estiveram intrinsecamente relacionados, mas só alguns conseguem ter a genialidade para os combinar. Dylan é um deles.

 

A verdade é que Bob Dylan não teve a necessidade de recorrer a grandes escritores/poetas para conceber grandes canções, porque ele próprio é um excelente poeta e escritor. Ainda persistem dúvidas na atribuição do Nobel?

 

Veja-se, a Academia Sueca escolhe os seus laureados pela importância que a obra dos mesmos tem na sociedade e, não haja dúvidas, o legado de Dylan que não é apenas musical mas também literário teve e continua a desempenhar esse papel. Qual é a dúvida?

 

Vi também por aí muitos escritores, desses que escrevem livros e que se acham num plano intelectual acima de um “mero” escritor de canções contra a atribuição do Nobel deste ano. Como já referi anteriormente, Dylan não escreveu apenas canções. Mas foquemo-nos apenas nas letras/poemas que Dylan escreve e canta. Só quem não os conhece é que pode duvidar da qualidade dos recursos literários neles contidos. A força da mensagem, a expressividade e a estética empregue em cada poema. Enfim. Há também aqueles que acham que o valor de uma obra literária se mede pela quantidade de palavras escritas e que letras/poemas de canções não cabem no universo das obras literárias. Pois eu não tenho dúvidas que alguns poemas (alguns deles bem curtos) e algumas letras de canções valem muito mais que centenas de páginas escritas por alguns pseudo-eruditos que inundam os escaparates das livrarias com… trampões literários.

 

Tal como referi no início, não sou apologista de distinções sociais, no entanto, esta deixou-me satisfeito. Não apenas pelo facto do laureado ser, de facto, alguém que muito tem contribuído para o enriquecimento do universo literário, mas também pela coragem que a Academia teve em cortar com alguns pestilentos padrões sociais que ainda minam a nossa sociedade.

 

Parabéns à Academia pela escolha. Proponho já o nome e a obra literária de Leonard Cohen para o próximo ano.

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