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Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

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O banalizar da corrupção

Eça de Queiroz dizia que “o que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança”. Dizia ainda que “esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença”.

 

Ultimamente, temos assistido a um folclore de acusações que configuram casos graves de corrupção, levados a cabo por políticos, empresários de grandes grupos económicos e até mesmo altos magistrados. Na verdade, a comunicação social, muitas vezes sem escrúpulos, só tem mediatizado aquilo que as pessoas sempre souberam, aquilo de que também Eça de Queiroz não tinha qualquer dúvida, em pleno século XIX.

 

Se, por um lado, há uma comunicação social que só tem interesse em inflamar e vender o assunto, por outro lado, há uma outra comunicação social que tenta desvalorizar a situação. São muitos os jornalista e comentadores a tentar passar a ideia de que em Portugal não há um grave problema de corrupção, que existe apenas pequena corrupção, comummente praticada nos patamares intermédios da sociedade.

 

Ora, eu não poderia discordar mais dessa estapafúrdia convicção. Portugal tem e sempre teve problemas graves de corrupção. E sim, quanto mais alto for o cargo de um determinado indivíduo, no sector público e no privado, maior a probabilidade de este ser corrupto (activo ou passivo). Mas serão todos corruptos? Eu acredito que não, com a mesma certeza que acredito que a maioria o é.

 

Tal como escrevi atrás, os últimos tempos evidenciam um vasto rol de acusações que envolvem altas personalidades, tais como ministros e ex-ministros, deputados e ex-deputados, directores executivos de grandes grupos económicos, banqueiros e, mais recentemente, juízes. Está instaurada a ideia de que ninguém escapa à Justiça.

 

Contudo, o passado já nos mostrou o que acontece, de facto, às altas personalidades que são acusadas em Portugal. Regra geral, o pior que lhes tem acontecido é ver o seu nome na lama, algo que não atenta muito contra a dignidade dos visados. Actualmente, com toda esta azáfama judiciária fica-se com a ideia de que ninguém escapará à Justiça, seja quem for. Não obstante, e de acordo com o testemunho do passado, não será difícil de se antever que o desfecho será, na esmagadora maioria dos casos, o arquivamento dos processos, a absolvição dos acusados ou, quando muito, a condenação com pena suspensa.

 

Toda esta conjuntura, isto é, o avolumar de acusações a altas personalidades acrescido do folclore que os meios de comunicação social conferem ao assunto, só fará com que a sociedade, em geral, fique ainda mais confusa e indiferente.

 

Assistimos, portanto, a um brilhante estratagema de banalização da corrupção. O clima tenderá a ser ainda mais favorável para os corruptos, pois, se até agora eram condenados na praça pública, mesmo antes de serem arguidos e julgados, doravante, ninguém dará muita importância às acusações de que um qualquer verdadeiro corrupto venha a ser alvo.

 

Dissemina-se a ideia de que ninguém está acima da Lei e, no final, os mesmos de sempre continuarão a prevaricar nos corredores do poder, desta feita, ainda mais relaxados. Em breve, ninguém dará importância a este tipo de acusações, a não ser a Justiça, o que é fantástico para qualquer corrupto minimamente competente e bem relacionado.