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Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

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RAPIDINHA

A cotação do petróleo continua em queda, mas os combustíveis vão aumentar. Porquê? Porque sim. Além disso, o Euro2024 está a começar e andam todos distraídos a bater palmas ao autocarro da selecção... portanto, é uma boa altura para aumentar os preços.

O capitalismo explicado por capitalistas

A última semana não foi nada poupada em lições sobre capitalismo. Desde o poder político, aos nomeados para cargos de aparente autoridade, até aos comentadores muito bem plantados na comunicação social de proa, todos evidenciaram ser uns mestres na teoria e na prática capitalista.

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No seguimento da medida implementada pelo Governo, que visa descer o IVA de alguns produtos considerados essenciais (ou de primeira necessidade) para zero, o primeiro-ministro, António Costa, foi a um canal de televisão dar uma entrevista, na qual demostrou uma enorme empatia para com as dificuldades que muitos portugueses atravessam. António Costa foi um mestre na arte de se solidarizar com os mais necessitados, mesmo tendo reconhecido de que é um privilegiado. Será normal, em Democracia, os representantes do povo sentirem-se (e serem, de facto) “uns privilegiados” face àqueles que representam?

Adiante. António Costa também mostrou muito pouca fé na medida que o seu governo acabará de executar. Costa demonstrou estar quase convencido de que a descida do IVA não só não vai fazer descer os preços, como ainda poderá fazer com que leve ao seu aumento. Ora, a questão que se coloca é a de saber qual a razão que leva um primeiro-ministro a abolir temporariamente a taxa de IVA em alguns produtos, quando acha que isso não vai surtir grande efeito e que ainda comporta o risco de fazer aumentar os preços? Mais, por que razão António Costa abdica de colher mais de 400 milhões de euros, quando sabe perfeitamente que esse dinheiro não vai ficar nos bolsos dos portugueses que estão a passar pior – aqueles por quem ele demonstra uma imensa empatia -, mas sim nos bolsos daqueles que há mais de um ano se andam a aproveitar da crise inflacionista para lucrar como nunca antes?

Já não deveria ser novidade para ninguém que a principal disciplina que um político aprende é a de se fazer passar por alguém que é igual ao seu “semelhante”, alguém que vivencia os mesmos problemas. E quando isso fica difícil de sustentar, eles partem para a cândida assunção daquilo que são as suas vidinhas privilegiadas, encenam uma genuína empatia para com todos aqueles que passam por mais dificuldades e tentam passar a ideia de que estão a trabalhar na defesa da melhoria das suas condições de vida.

O problema é que António Costa e o seu governo maioritário não governam para as pessoas, mas sim a favor de uma minoria de privilegiados (como eles). Na entrevista que deu em horário nobre, a António Costa só faltou dizer o seguinte: “quem me dera ser primeiro-ministro para poder fazer alguma coisa pela maioria dos portugueses”. Isso é que era uma empatia dos diabos.

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Durante a semana também tivemos um antigo ministro das Finanças (de um governo de Costa) a dizer umas coisas interessantes. Sobre a eliminação do IVA, Mário Centeno disse que “também é verdade que parte da eliminação do imposto vai parar às margens dos produtores e dos distribuidores”. Ah sim? É verdade porquê? Está na lei? Está sim. Está na lei capitalista, aquela que o Estado nunca interrompe e ainda promove.

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E para resumir e agregar toda esta missiva capitalista, apareceu um dos comentadores ao serviço da causa, para cimentar ainda mais a ideia na cabeça dos crédulos. Também sobre a descida do IVA, Pedro Marques Lopes disse que a medida “pode ter algum resultado, só que será sempre muito limitado, porque a maioria destes produtos já tinha uma taxa de IVA bastante reduzida, eram os de 6%”.

E acrescentou que “quem vende ou quem produz vai sempre querer ficar com esta margem (queda do imposto)”. Ora, aqui fica, uma vez mais, bem patente um princípio básico do capitalismo, ou seja, aqueles que têm o poder para fixar os preços “vão sempre querer ficar com esta margem”. Eu só acrescentaria que vão tentar SEMPRE ficar com esta margem e com todas as margens possíveis, na maior medida possível.

Mas, a dada altura, o senhor Pedro Marques Lopes afirma com muita convicção que “estes produtos [os que vão ver o IVA reduzido a zero], obviamente que vão ter muito maior procura do que os outros, logo esse aumento da procura vai fazer que o preço suba”. Como assim? Então o senhor Pedro Marques Lopes começa por dizer que a descida do IVA “pode ter algum resultado, só que será sempre muito limitado, porque a maioria destes produtos já tinha uma taxa de IVA bastante reduzida” e segundos depois já entende que a procura vai aumentar? Por que carga de água a procura desses produtos vai aumentar, se o ganho é - como ele próprio sustenta - “muito reduzido”? Bastante incoerente, não? Normal no capitalismo.

A coisa fica ainda mais feia quando o senhor Pedro Marques Lopes decide teorizar sobre o comportamento do mercado. Marques Lopes disse que “é muito difícil a oferta adaptar-se a um aumento muito significativo da procura, o que é que vai acontecer, inevitavelmente estes preços vão aumentar”. Ou seja, cumpriu bem a sua função de batedor do exército capitalista. O problema é que, novamente, a afirmação de Marques Lopes não faz qualquer sentido, pois não tem nenhuma aderência com a realidade, porque não haverá nenhum aumento significativo da procura. Marques Lopes tenta apenas fazer aquilo que fizeram António Costa e Mário Centeno, ou seja, antecipar aquilo que será o resultado da ganância capitalista e preparar a opinião pública para esse facto. Assim, já ninguém vai estranhar, porque políticos e “especialistas” já o disseram – na televisão – logo, é porque é realmente assim que as coisas funcionam. E é assim que tem que ser. E o povão está cá para aceitar, como uns doces carneirinhos.

Mas a parte melhor ficou para o final do palavreado capitalista do senhor Pedro Marques Lopes. Do cimo de todo o seu conhecimento da teoria económica e do processo de formação dos preços, Marques Lopes foi ainda mais longe – como fazem sempre os bons capitalistas – e avisou que “por outro lado, os outros produtos tendem também a aumentar, porque também, como a sua margem [baixa]… os distribuidores e os produtores vão tentar recuperar a margem naquilo onde são os produtos onde estão a perder a margem”. Bolas! O “doutor” Pedro Marques Lopes deveria ter sido o meu professor de Economia I.

Ou seja, Marques Lopes socorre-se da Lei da Oferta e da Procura para dizer que se a procura de um bem aumenta, o seu preço também vai aumentar. Contudo, em relação aos produtos que podem ver a sua procura diminuída, o facto de a oferta passar a exceder a procura não conduzirá à descida do preço, mas sim TAMBÉM ao seu aumento, porque segundo o guru da Economia, Marques Lopes, “os distribuidores e os produtores vão tentar recuperar a margem naquilo onde são os produtos onde estão a perder a margem”.

É claro que vão, porque como insinuou António Costa, como alertou Mário Centeno e como rejubilou Marques Lopes, num sistema capitalista as leis da Economia, mais concretamente, as leis do funcionamento do mercado e da formação dos preços não são para se cumprir. Num sistema capitalista, o mercado não funciona como tal, e os preços reflectem SEMPRE as margens que aqueles que têm o poder para os fixar desejem obter.

Num sistema capitalista não há democracia.

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