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Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

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Ó Maria Luís, se dúvidas houvesse...

A propósito de ter aceitado o cargo de administradora não executiva na empresa Arrow Global, que lucra muito com a dívida portuguesa, Maria Luís Albuquerque disse:

 

“Para mim a ética não é uma questão de tempo. Se em algum momento eu tivesse algum acto, enquanto governante, dado a esta empresa algum tipo de tratamento privilegiado ou algum tipo de benefício, não iria trabalhar para esta empresa nem agora, nem daqui a três anos, nem daqui a cinco, nem daqui a seis. Para mim a ética não é uma questão de tempo. Muitas das pessoas que falaram, falaram com ignorância, populismo e má-fé”.

 

Recorde-se que Maria Luís Albuquerque foi a anterior ministra das finanças (até há bem pouco tempo) e que continua a ser deputada na Assembleia da República, acumulando essa função com a de administradora de uma empresa que lucra muito dinheiro com a desgraça da nação que ela supostamente também defende. Tudo muito ético, portanto.

 

Costuma-se dizer que mais depressa se apanha um aldrabão do que um coxo. Escalpelizemos, então, as muito recentes e peculiares afirmações de Maria Luís. Ela começa por dizer que “a ética não é uma questão de tempo” e que “se algum dia tivesse dado tratamento privilegiado ou algum tipo de benefício à empresa Arrow Global…”; Vejamos, de facto, a ética é algo atemporal, pelo menos a ética daqueles que a prezam. Já em relação a ter dado tratamento privilegiado à empresa Arrow (algo que a mim não oferece qualquer dúvida), enquanto ministra das finanças, não é isso que os seus adversários políticos têm dito. O que disseram foi que, depois de ter ocupado o cargo de ministra das finanças, Maria Luís está na posse de informação privilegiada que pode render muito à empresa que agora a contratou, algo que pode ser altamente lesivo para o Estado português – e isso é, no mínimo, falta de ética.

 

Mas o mais curioso foi o facto de ter dito que “Se em algum momento eu tivesse algum acto, enquanto governante, dado a esta empresa algum tipo de tratamento privilegiado ou algum tipo de benefício, não iria trabalhar para esta empresa nem agora, nem daqui a três anos, nem daqui a cinco, nem daqui a seis.”. Esta é a frase que demonstra bem a idoneidade de Maria Luís Albuquerque. Para ela, a ética não é uma questão de tempo, a não ser que já tenha passado seis anos, já que não foi capaz de dizer que jamais seria capaz de trabalhar para uma empresa como a Arrow Global. Segundo ela, não seria capaz de tal aberração, no máximo, nos seis anos subsequentes à sua saída do Ministério das Finanças. Outra ilação (e esta é a melhor) que se pode retirar desta afirmação é o facto de Maria Luís dizer que se tivesse beneficiado esta empresa enquanto ministra, agora não aceitaria trabalhar para ela. Mas isto faz algum sentido? Partindo dessa suposição, que ela própria formulou, a falta de ética (eu diria mesmo, o crime) não estaria, nem começaria, só no momento em que aceitou o rendoso tacho que lhe foi oferecido na Arrow Global, mas principalmente, no facto de, enquanto ministra, ter beneficiado uma empresa privada e prejudicado o Estado.

 

Isto é o mesmo que alguém dizer: “Se um dia eu me divorciar da minha mulher, por tê-la traído com outra, jamais aceitarei envolver-me com “a outra” a partir da data da separação”. Isto é lógico? Claro que não.

 

Depreende-se, portanto, que a consciência de Maria Luís só lhe pesaria depois de quebrar o vínculo com a parte lesada, talvez seja essa a razão que a leva a manter-se vinculada ao Estado português, via deputada à Assembleia da República. Assim continua tudo bem.

 

Isto é revelador de uma desesperada necessidade de querer parecer o que não se é. Este tipo de raciocínio, baseado em premissas inquinadas, normalmente denuncia a perfídia de quem o exerce.

 

O que para já faz todo o sentido afirmar é que, afinal, para Maria Luís Albuquerque, a ética tem prazo de validade e é um prazo bem inferior a seis anos.

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