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Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

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O que (des)aprendi com a atitude do Marega

Há anos (eu diria, desde sempre) que actos considerados racistas estão vincadamente presentes na sociedade portuguesa. É óbvio que o futebol não é e nunca foi excepção. O que é realmente estranho é que as entidades responsáveis e a sociedade em geral só tenham acordado agora. E, estou certo que, caso o jogador Marega não tivesse pedido para ser substituído, o problema passaria mais ou menos despercebido, tal como tem acontecido até aqui.

Então, como é? O caso só assume gravidade se o ofendido manifestar desagrado? Se é considerado um acto racista, então é um crime público e a PGR não precisa de mais nada para actuar. Por que razão nunca o fez até agora? E foram tantos os casos… Agora, parece que a PSP já está a investigar o caso, na tentativa de identificar quem foram as pessoas que entoaram "cânticos" racistas. Há poucos dias vi vários adeptos do Sporting a entoar: “Varandas, cabrão, pede a demissão”, mesmo nas barbas dos agentes da PSP. Alguém foi identificado ou pelo menos advertido? Óbvio que não.

Outra ilação importante a retirar deste caso é o comportamento dos políticos, sobretudo aqueles que têm maiores responsabilidades. Vimos o Primeiro-ministro e o Presidente da República a assumir posições quase imediatas, reprovando veementemente os acontecimentos no Estádio D. Afonso Henriques. Esta é, por norma, a actuação típica dos políticos portugueses, sempre que um caso assume grandes proporções nas redes sociais, pois são elas (as redes) que ditam o que é relevante ou não. As redes sociais são o despertador das mentes.

E o mais irritante de tudo isto é constatar que os políticos descartam todas as suas responsabilidades num simples tweet. Basta “tweetar” a condenar o acto e já está, não é preciso fazer mais nada.

No entanto, não me recordo de ter visto o Primeiro-ministro ou Presidente da República a condenar veementemente a actuação do agente da PSP contra a senhora Cláudia Simões. Aliás, aquilo de que bem me lembro é de ter visto o senhor director da PSP, recentemente nomeado com jactantes elogios por parte do Governo, a dizer que o agente da PSP apenas se limitou a cumprir as suas obrigações. A Cláudia Simões (cidadã de raça negra) foi muito mais mal tratada do que o Marega, e a sociedade em geral, mas os governantes em particular, não deram o mesmo tratamento ao caso. Porquê?

Parece que o racismo no futebol é uma espécie de racismo de primeira categoria. O racismo que se vive nos mais diversos locais, todos os dias, esse é de terceira categoria e parece não existir para as mais destacadas entidades. Este tipo de comportamentos fazem-me acreditar que há vários níveis de racismo. 

Mesmo dentro do futebol parece existir vários patamares de racismo, o que me leva a concluir que mais do que a cor da pele, está em causa a cor da camisola e, claro, o estatuto da pessoa em causa. Por exemplo, há não muito tempo, num jogo realizado no Estádio do Dragão, os adeptos do FC Porto fartaram-se de entoar "uh-uh-uhs" quando um jogador de raça negra da equipa do Young Boys se preparava para marcar um penálti. O que disse o FC Porto? Nada. Marega? Nem um pingo de solidariedade. Sérgio Conceição foi o único que se pronunciou na altura, dizendo que não vislumbrou nenhuma atitude racista. 

Eu acredito que o comportamento de alguns dos adeptos no Domingo à noite em Guimarães não teve origem em motivações racistas. É óbvio que não coloco de parte que alguns deles sejam racistas, mas estou certo que, a dada altura, muitos outros adeptos embarcaram nos “uh-uh-uhs” ao Marega apenas por pura provocação e/ou retaliação, já que o jogador do FC Porto também não esteve bem ao provocar a bancada dos adeptos do Vitória.

Talvez a PSP, que tem peritos em racismo, mas não em insultos, nos consiga esclarecer.

Creio que a maioria dos adeptos apenas quis “entrar na cabeça” do Marega, numa tentativa de o destabilizar. E conseguiram. A forma como o fizeram é bonita? Não. Configura um caso de racismo? É possível que sim, mas estou convicto de que a maioria dos que entoaram os “uh-uh-uhs” não nutre qualquer tipo de ódio ou repulsa pela cor da pele do Marega. Tratou-se apenas de recorrer aos instintos mais básicos e subconscientes para “atacar” um adversário, tal como acontece quando são entoados outros tipos de insultos. Mas, afinal, estão à espera do quê? Que as boas lições de cidadania venham das bancadas de um estádio de futebol? Acho que estamos muito longe disso.

E a maior responsabilidade desta situação recai sobre as entidades competentes, desde o poder político às forças de segurança, mas também nos intervenientes directos do jogo. Os jogadores e treinadores de futebol (e muitas vezes, os próprios dirigentes) estão constantemente a trocar insultos. Os árbitros são frequentemente insultados pelos jogadores. Ainda há pouco tempo vi um “craque” de um dos chamados grandes, um jogador muito elogiado por todo o lado, a insultar um árbitro assistente da seguinte maneira: “Vai-te f…, vai pró c…, seu fdp.”. Posto isto, querem o quê? Que sejam os adeptos a manter a cabeça fria?

Eu estou certo que muitos daqueles que entoaram os “uh-uh-uhs” ao Marega, se o encontrassem na rua lhe pediriam um autógrafo ou uma selfie e lhe davam um abraço. O comportamento dentro do estádio foi a quente e irreflectido, tal como o do próprio Marega, a meu ver. Eu preferia que ele tivesse canalizado a sua revolta para o jogo, tal como fez o Hulk no Estádio da Luz

Não posso terminar sem vincar que é muito importante dizer não ao racismo, mas fazê-lo na medida certa e na hora certa é ainda mais importante. Creio que aquilo que está a acontecer agora pode ser desproporcional e, uma vez mais, quem se vai lixar é o mexilhão, neste caso, o Vitória Sport Clube, que vai levar com um castigo inédito para servir de exemplo.

Se isto tivesse acontecido na casa de um dos três grandes ficava tudo em águas de bacalhau.

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