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Panteão e o estatuto dos mortos e dos vivos

O Panteão Nacional é, supostamente, um lugar destinado a albergar os restos mortais de pessoas ilustres. É também um sítio onde ilustres vivos degustam saborosos banquetes. Portanto, é um local que confere estatuto a alguns mortos e a alguns vivos.

 

Há pouco tempo, alguns membros do Partido Socialista sugeriram que os restos mortais de Mário Soares deveriam ser trasladados para o Panteão Nacional. Mário Soares foi um político ilustre e, como tal, há que lhe perpetuar esse estatuto, por meio da sua deslocalização para o Panteão, defendem eles.

 

Elementos do PSD não perderam tempo e vieram logo exigir que Sá Carneiro também fosse para o Panteão, fazendo-o por intermédio daquela espécie de birra infantil “se ele vai, então nós também queremos”. E porquê? Porque o que está em causa não é apenas o estatuto dos mortos, mas acima de tudo o estatuto dos vivos, que se sentem muito mais representados na memória dos que já morreram do que naqueles que agora assumem distintas funções.

 

Mais recentemente foi a vez da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) ter proposto a trasladação dos restos mortais de Zeca Afonso para o Panteão. Estará a SPA do senhor Tozé Brito realmente interessada em homenagear a memória do saudoso cantor e compositor? Ou estará muito mais interessada em se autopromover, também neste caso muito mais em benefício do estatuto dos vivos do que daquele que foi, provavelmente, o maior escritor português de canções?

 

Note-se que no meio disto tudo, ninguém está preocupado em saber se as pessoas falecidas gostariam ou não de repousar no Panteão. Aliás, parece que no caso de Zeca Afonso, o próprio fez questão de dizer onde e como gostaria de ser sepultado. E agora, meia-dúzia de pretensiosos querem, porque querem, que as suas vontades sejam atendidas, independentemente da vontade que o falecido tenha manifestado.

 

Para evitar este tipo de situação sugiro que, cada português seja obrigado a manifestar-se quanto à futura disponibilidade para se tornar num distinto morto, ou seja, para figurar entre os ilustres que repousam no Panteão Nacional.

 

Por mim podem levar para lá o Mário Soares, o Sá Carneiro e até o Cavaco. Mas, por favor, deixem o Zeca Afonso onde está, pois tenho a certeza que ele dispensaria que o obrigassem a permanecer num lugar tão bem frequentado.

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