Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

Contrário

oposto | discordante | inverso | reverso | avesso | antagónico | contra | vice-versa

Passos Coelho e o Salário Mínimo Nacional

Passos Coelho disse que “o aumento do salário mínimo deve estar relacionado com a evolução da produtividade”. Disse ainda que era esta a posição do seu partido quando estava no governo e, portanto, é a mesma agora que está na oposição. Disse ainda que “se a actualização do salário mínimo não reflectir o aumento da produtividade, as empresas perdem competitividade e acabam por gerar menos rendimento e menos emprego do que aquele que gerariam se fossem mais competitivas…”.

 

Toda a gente sabe qual é (e sempre foi) a posição da Direita em relação ao salário mínimo nacional (SMN). Os neoliberais nunca foram, sequer, a favor da existência do salário mínimo quanto mais aumentá-lo (ainda que o tenham feito esporadicamente, sabe Deus com que intenção). Para os neoliberais, o salário mínimo deveria ser aquele que o patrão está disposto a pagar.

 

Vejamos. Passos diz que o aumento do SMN deve estar relacionado com a evolução da produtividade. Trocando isto por miúdos, o que ele quer dizer é que só se deve aumentar o SMN se quem o recebe passar a “produzir mais”. Como se o problema da falta de produtividade se devesse ao baixo desempenho dos trabalhadores. Neste tipo de raciocínio salta logo à vista que, para Passos e sua Direita, as empresas só não produzem mais e não são mais competitivas devido à baixa produtividade da classe trabalhadora. E o que nos apresentam como solução? Não aumentar o SMN. Os neoliberais, que sempre se regeram pela escola neoclássica e pela aversão à intervenção do Estado na economia, nunca admitiram que a falta de produtividade se possa dever a outros factores, tais como, a incompetência dos gestores, a concorrência cada vez mais global, problemas estruturais da economia, a insuficiência de políticas de protecção dos trabalhadores, etc.

 

Não. Para eles a culpa é dos trabalhadores, principalmente daqueles que menos ganham, pelo que consideram aumentar o seu salário, apenas e só, se estes aumentarem a produtividade. Ou seja, esta gente delega naqueles que menos ganham a responsabilidade pelos níveis de produtividade e competitividade, mas só quando ambos são baixos. Repare-se que esta gente não é capaz de pensar na questão de forma inversa, ou seja, na possibilidade de a evolução da produtividade estar relacionada com o aumento do SMN. Quero com isto dizer que, quem é aumentado sentir-se-á motivado a produzir mais, naturalmente. É também importante não esquecer que o aumento do SMN conduz ao crescimento económico, já que a população que o aufere apresenta uma enorme probabilidade de o gastar, promovendo o aumento do consumo e da circulação do dinheiro. Promovendo também a competitividade e a criação de mais emprego. Mas não quero com isto dizer que a questão se esgota por aí.

 

Já Passos Coelho e a Direita que o acompanha pensam no SMN como uma chaga para economia, para a produtividade e competitividade das empresas. Para eles o ideal seria pagar ainda menos do que o actual SMN, ou até mesmo nem pagar nada, em nome da competitividade das empresas.

 

E, já agora, se para Passos Coelho a questão do aumento SMN se prende apenas com a produtividade, eu gostaria de lhe perguntar como pretende solucionar o problema. Como pretende medir a produtividade? A economia de um país apresenta níveis de produtividade diferentes entre sectores. E dentro do mesmo sector, temos agentes económicos com diferentes performances de produtividade e competitividade. Pretenderá Passos Coelho que os mais produtivos suportem o aumento salarial dos que menos produzem? Querem ver que Passos Coelho passou a defender a distribuição equitativa da riqueza?

 

Concluindo, parece razoável afirmar que o aumento do SMN não garante o aumento de produtividade, da mesma forma que a sua estagnação ou até mesmo uma redução ou extinção jamais garantirá competitividade e acréscimo de produtividade, como defende a Direita. O aumento do SMN é uma importante medida de combate à pobreza, e uma importante política de justiça social e protecção dos trabalhadores. É apenas isso.

4 comentários

  • Imagem de perfil

    Pedro

    04.11.16

    Sim a premissa do neoliberalismo é o regresso à lei da Selva. Após séculos de esforço cultural - criação de códigos de conduta e moral, todos eles apologistas da defesa dos mais fracos contra os abusos dos mais poderosos; veja-se o sermão aos peixes do padre António Vieira - para sairmos de vez da selva, os neoliberais ufanam-se por novamente regressarem às cavernas.
    "Entre os homens, além de serem os grandes que "comem" os pequenos, devoram-nos em grande quantidade,"

    Esquece-se que tem existido aumentos significativos nos salários das chefias, no privado, em sectores tão pujantes, como a Banca (aumentos na ordem dos 25% e mais).

    Quando o sector privado em Portugal vive À conta do Estado, através de monopólios naturais , ou de baixo valor acrescentado é difícil o aumento da produtividade - hipermercados, Brisa, REN, EDP, etc - os trabalhadores em Portugal são os que passam mais tempo no "trabalho".

  • Sem imagem de perfil

    Daniel Silva

    04.11.16

    Engraçado. Os seculos de esforço cultural culminaram no país mais neoliberal que existe: os EUA. Pelos vistos eles sao uma desgraça em termos empresariais. Garantem a independencia e em pouco tempo transformam-se na força motora do mundo. Lampada, modelo T da Ford, internet, google, youtube iphone etc etc etc. Se isso significa tempo das cavernas , temos entao uma pequena diferença de opinião. Aceitemo-la.
    E sempre achei curioso quando se compara aumentos de salarios da banca, edp, ren, brisa, hiper. Representam 1% das empresas privadas em portugal, mas se eles aumentam os seus salarios, as outras 99% tambem podem. Left logic.
    Sector privado a viver à custa do estado. Essa teve piada. Voltando ao seu exemplo, hipermercados baseiam a sua receita no consumidor final. Edp idem aspas. Brisa, Galp etc.
    Monopolios destas empresas, outra piada. Quando aparece concorrencia, os portugueses ignoram, ficam sempre nas conhecidas. Ja existe concorrencia para a EDP mas ninguem adere. Ja existe concorrencia para a galp, mas ninguem adere. Normalmente o preço é mais caro porque ainda nao têm economia de escala para conseguirem um preço inferior. Mas estas coisas a esquerda nao compreende.

    Mas nao podemos esquecer, no meio disto tudo, so falamos de 1% das empresas privadas em Portugal. O resto para a esquerda, nao interessa.
  • Imagem de perfil

    Pedro

    04.11.16

    A mim pouco me importa um país em termos empresarias, ou tecnológicos. Preocupam-me as pessoas em termos não comerciais, em termos não tecnológicos.
    Curioso é haver aumentos em empresas que depois vêm de mão estendida pedir dinheiro público - bem sei que temos dos melhores gestores do mundo e quiçá da Europa - Bava, etc.
    Se não podem pagar aumentos salariais vejo uma saída - deixar de querer ser patrão, ou trabalhar por conta de outrem.
    Vá falar com os que produzem e vendem para essa grandes montras tecnológicas que são os hipermercados.
    Concorrência num país com 10 milhões de habitantes e três grandes grupos por sector económico - telecomunicações, banca, energia. É para rir (tem sido poucos as denuncias de concertação de preços - condenações?? nenhumas, mas cá na terra a justiça é desolhada.
    Qual economia de escala. Quando uma empresa é grande consegue baixar os preços, mesmo sem clientes (é assim que se entra no mercado) - geram tão altos lucros, em outros sectores e bolsa que conseguem aguentar anos sem lucros - veja-se a década de 90 nos States com a liberalização do mercado nacional de aviação civil
  • Comentar:

    CorretorEmoji

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.